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1.8.12

de profundis amamus

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso

mário cesariny de vasconcelos“de profundis amamus”

23.4.12

PASTELARIA


Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmera escura

Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante!

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os
olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade, rapaz? E amanhã à bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saida da pastelaria, e lá fora - ah, lá fora! - rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny - " nobilíssima visão ", assirio & alvim

16.9.11

de profundis amamus

Mario Cesariny de Vasconcelos.jpg

DE PROFUNDIS AMAMUS (mário cesariny de vasconcelos)

Ontem
às onze
fumaste
um cigarro

encontrei-te
sentado

ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus

estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
 dez quilómetros

a pé

ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros

é da natureza das coisas
ser-se visto

pelos porteiros

Olha

como só tu sabes olhar

a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio

e há quatro mil pessoas interessadas

nisso

Não faz mal abracem-me
os teus olhos

de extremo a extremo azuis

vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes

não te importes

muito
nós só temos a ver

com o presente
perfeito

corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem

o estranho verbo nosso


11.9.11

“Aviso a Tempo por Causa do Tempo”

grupo_lisboa.jpg
Grupo Surrealista de Lisboa, Portugal 1949. Na foto, da esquerda para a direita : Henrique Risques Pereira, Mário Henrique Leiria, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Carlos Eurico da Costa e Fernando Alves dos Santos. I Exposição dos Surrealistas, Junho/Julho, 1949.

O Manifesto – “Aviso a Tempo por Causa do Tempo”,
de António Maria Lisboa e a atitude dos surrealistas portugueses


Declara-se para que se saiba:

1.º
que não apoiamos qualquer partido, grupo, directriz política ou ideologia e que na sua frente apenas nos resta tomar conhecimento: algumas vezes achar bom outras achar mau. Quanto à nossa própria doutrina, os outros hão-de falar.

2.º
que não simpatizando com qualquer organização policial ou militar achamo-las no entanto fruto e elemento exacto e necessário da sociedade – com quem não simpatizamos igualmente.

3.º
que sendo nós indivíduos livres de compromissos políticos permaneceremos em qualquer local com o mesmo à-vontade. Seremos nós os melhores cofres fortes dos segredos do estado: ignoramo-los.

4.º
que sendo individualmente e portanto abjeccionalmente desligados das normas convencionais, temos o máximo regozijo em ver essas mesmas normas
nos componentes da sociedade. Assim delas daremos por vezes testemunho e mesmo ensino.

5.º
que não somos assim contra a ordem, o trabalho, o progresso, a família, a pátria, o conhecimento estabelecido (religioso, filosófico, científico) mas que na e
pela Liberdade, Amor e Conhecimento que lhes preside preferimos estes.

6.º
que a crítica é a forma da nossa permanência.

- António Maria Lisboa, Poesia, Assírio & Alvim.

**********
“Para a pátria, a igreja e o estado a nossa última palavra

será sempre: MERDA.”


(Abril de 1950, finalizando o “Comunicado dos Surrealistas Portugueses”,
assinado por Artur do Cruzeiro Seixas, João Artur Silva e Mário Henriques Leiria)


8.7.11

à memória do António


António Jorge Branco
(1937-2011)

a esta hora entre os blocos de prédios enevoados a bela mancha
diurna dos calceteiros na praça
e os dois amantes que hoje não dormiram vão partir nos braços da
sua estrela
à beira do caminho ladeado de sebes de espinheiro
uma carta
uma letra muito fina extremamente caligráfica
onde a aventura do homem que devolve as palavras que lhe são
remetidas
deixou a sua marca
e o duque da terceira levanta o braço
comentando seguido pelas aves que acordam a duzentos e mais
metros de altura
o que não é ainda a grande altura

sim sim

não são

quem sabe


dentro do grande túnel digo-te a vida

mário cesariny - corpo visível 1950


Há muitos anos, arranjámos uns dias e viajámos num citroen 2 cv para a região de Figueira de Castelo Rodrigo em busca de uma herança paterna do António.
Tinhamos esta coisa em comum: gostavamos de viajar e de gajas ...
— sabes uma coisa?
— diz.
— só há duas maneiras de viver
— ou vives feliz ou não
cruzámos o olhar e secretamente sorrimos em silêncio
— dás-me lume?

hoje fostes tu, um dia destes serei eu... talvez alguém se lembre de um ou dois dias passados não sei onde ou de uma ou outra confidência dita entre o fumo d'alguns cigarros e uns copos de vinho ... talvez alguém se lembre

— será que podemos morrer ainda que alguém se lembre de nós?


11.6.11

POEMA


Em todas as ruas te encontro

em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real

que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

Joan Miró - Retrato IV (1938).jpg
Joan Miró - Retrato IV (1938)
Óleo sobre tela. 130 x 97 cm