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22.2.13
A-Z
Da vida... não fales nela,
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.
Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'
8.3.12
Arrecadação
ARRECADAÇÃO
Relógio combalido...
minutos eram muitos, tantos, tantos...
e os astros à lareira
aprendem a aquecer-se...
Quantos céus vieram acabar ali!...
e ali estão a enrubescer à chama
e ajeitando a manta nos joelhos...
— E daquela vez que Saturno inclinou de mais o anel?
— E quando passávamos por detrás da lua!
Na terra toda a gente olhando,
a querer em nós ler o segredo...
Relógio combalido...
minutos eram muitos, tantos, tantos...
e os astros à lareira
aprendem a aquecer-se
e riem, riem mansamente...
quantos céus vieram acabar ali...
— Há quem não conheça a Via Láctea...
— Sabes? Também lhe chamam Estrada-de-Santiago...
— Disseram-me que o outro dia um homem descobriu a minha idade...
riem todos, riem mansamente...
minutos eram tantos, tantos, tantos...
Da janela da arrecadação
vê-se trabalhar pelo infinito,
uns pouco firmes, outros decididos...
Agora mesmo, um Poeta escreveu que nós andámos no infinito...
e riem devagar como se me vissem muito perto.
No silêncio crepitou a lenha,
há nova cor e variação de brilho.
— Além atrás da porta...
— Ah sim! É uma foice...
muito antiga... muito antiga... Já não corta.
E os astros riem, riem mansamente...
Relógio combalido...
minutos eram muitos, tantos, tantos...
28/7/1940
Jorge de Sena - Perseguição
2.10.11
Da Vida... não Fales Nela
Da vida... não fales nela,
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.
Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida... Não fales nela.
Quanto saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.
Sê, firme, o ritmo avança,
é dócil a vida, e mansa...
Não fales nela, que a mentes.
Jorge de Sena, in 'Pedra Filosofal'
12.9.11
“No País dos Sacanas”

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
Todos o são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para poder funcionar fraternalmente
a humidade de próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.
Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?
Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então nesse país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.
Jorge de Sena em “40 Anos de Servidão”
25.5.11
desabafo...
23.1.11
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,

Podereis roubar-me tudo:
as ideias, as palavras, as imagens,
e também as metáforas, os temas, os motivos,
os símbolos, e a primazia
nas dores sofridas de uma língua nova,
no entendimento de outros, na coragem
de combater, julgar, de penetrar
em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
será terrível. Não só quando
vossos netos não souberem já quem sois
terão de me saber melhor ainda
do que fingis que não sabeis,
como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
tido por meu, contado como meu,
até mesmo aquele pouco e miserável
que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
Para passar por meu. E para os outros ladrões,
Iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.
Jorge de Sena
28.10.10
AOS 50 ANOS...
«AOS CINQUENTA ANOS...»Aos cinquenta anos sou um ser perplexo,
não como aos vinte, aos trinta, ou aos quarenta,
mas radicalmente perplexo. Não sei
se amo a vida ou a detesto. Se desejo
ou não desejo continuar vivendo.
Se amo ou não amo aqueles que amo,
se odeio ou não odeio os que detesto.
Se me quero patriarca, pai de família, como acabei sendo,
ou se me quero livre pelas ruas nocturnas
como quando não acabei de descobri-las
em décadas de andá-las, perseguindo
sequer o amor mas corpos, corpos, corpos.
Sou de Europa ou de América? De Portugal
ou Brasil? Desejo que toda a humanidade
seja feliz como queira, ou quero que ela morra
do cogumelo atómico prometido e possível?
Não sei. Definitivamente, não sei.
Julgas que estou deitado num leito de rosas?
— perguntava ao companheiro de tortura Cuauhtemoc.
Mas, mesmo destituído, preso, e torturado,
ele era o Imperador, descendente dos deuses.
Eu não descendo dos deuses. O corpo doi-me,
que envelhece. O espírito doi-me de um cansaço físico.
As belezas de alma, seja de quem forem, deixaram de interessar-me.
Resta a poesia que me enoja nos outros
a não ser antigos, limpos agora do esterco
de terem vivido. E eu vivi tanto
que me parece tão pouco. E hei-de morrer
desesperado por não ter vivido. Aos 50 anos
nem sequer a raiva dos outros ainda me sustenta
o gosto e a paciência de estar vivo.
Outros que tentem e descubram:
que digam ou não digam é-me indiferente.
Junho 15, 1970
Jorge de Sena (Lisboa, 1919 - Santa Barbara, California, 1978)
40 anos de Servidão (Jorge de Sena). Círculo de Poesia. Moraes Editores, 2ª edição revista, 1982.
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