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20.3.13





É tão difícil guardar um rio
 

sobretudo quando ele corre 

dentro de nós.

 


Jorge Sousa Braga


Marcel Marceau

17.3.12

Portugal



Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir
como se tivesse oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo mentira que o Infante
D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electrochoques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiros dos Jerónimos a ver se contraía a febre do Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr encontrar uma pétala que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
como me pude eu apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentúgal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada de ressentimentos
O meu irmão esteve na guerra tenho amigos que emigraram nada de ressentimentos
Um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
depois de ter salvo inúmeras vezes os Lusíadas a nado na piscina municipal de Braga
ia agora propor-te um projecto eminentemente nacional
Que fôssemos todos a Ceuta à procura do olho que Camões lá deixou
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca

Jorge Sousa Braga, do livro «De manhã vamos todos acordar com uma pérola no cu»
 

2.8.11

a desordem é apenas a ordem que não nos convém

Photo of Edgar Cayce and T.J. Davis, at the fishing pier on Holly Lake, Virginia Beach, August 31, 1940.jpg

Há rios
que são navegáveis
e navegam. É desses que eu gosto.

Jorge de Sousa Braga

[Photo of Edgar Cayce and T.J. Davis, at the fishing pier on Holly Lake, Virginia Beach, August 31, 1940]

24.5.11

coisas


“Tudo cresce no silêncio. Tudo cresce em silêncio.
Desde o ácer até à vulgar tradescância. Mas quem melhor se
adapta são, sem dúvida, os miosótis. Depois de alguns minutos
em silêncio já nem te consegues mexer, com o receio de os pisares.”

Jorge de Sousa Braga

14.5.11

outros mundos

Contanto que a poesia seja — continue a ser — um lugar onde ainda se pode respirar.jpg

“No fundo, o que me recuso a acreditar é que estejamos condenados.
Apesar dos prados envenenados, da lenta agonia dos rios e do mar.
Da atmosfera cada vez mais carregada das cidades.
Contanto que a poesia seja — continue a ser —
um lugar
onde ainda se pode
respirar”


Jorge de Sousa Braga