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21.11.18

Todas as Palavras



Todas as Palavras

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistira
e partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina,  Atropelamento e Fuga (Assírio & Alvim, 2001)
photo Yousuf Karsh, Pablo Casals (1954) 

16.12.12

...







Não o Sonho
       
        Talvez sejas a breve
        recordação de um sonho
        de que alguém (talvez tu) acordou
        (não o sonho, mas a recordação dele),
        um sonho parado de que restam
        apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
        Também eu não me lembro,
        também eu estou preso nos meus sentidos
        sem poder sair. Se pudesses ouvir,
        aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
        animais acossados e perdidos
        tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
        desamarraram-me de mim e agora
        só me lembro pelo lado de fora.
       
        Manuel António Pina, "Atropelamento e Fuga"




21.9.10

TODAS AS PALAVRAS

TODAS AS PALAVRAS

As que procurei em vão,
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.

Manuel António Pina