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4.8.12
... cá dentro inquietação, inquietação
Inquietação
A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes
São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha
Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas
Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda
Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda
Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda
José Mário Branco
25.4.12
"Fables and Dreams"
Mãe...
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar... (...) Diz lá, valeu a pena a travessia?
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar... (...) Diz lá, valeu a pena a travessia?
José Mário Branco - excerto da obra «FMI»
Imagem: 25 de Abril de 1974
Imagem: 25 de Abril de 1974
~ Café Margoso ~
Ser Solidário, 1ma homenagem

...e uma grande homenagem
José Mário Branco, um dos símbolos vivos da Revolução de Abril, lutou contra a pide e cantou contra a guerra colonial. Foi preso e teve que se exilar em França. Lá teve dois filhos. Um deles estava na barriga da mãe em pleno Maio de 68, no meio das barricadas de Paris, a um mês de nascer. É filho da Revolução e de revolucionários. Sou eu. E tenho um orgulho dificil de descrever por ter este homem como meu pai.
~ JB - Café Margoso
25.4.11
Queixa das almas jovens censuradas
passados estes anos todos, já não sei se foi o 25 de Abril dos cravos ou dos escravos ...
estou em crêr que isto ainda podia mudar ... estou farto...........e já me começa a faltar as forças.......que força é essa amigo?
Recomeçamos:
estou fraco, mas não derrotado
estou em crêr que isto ainda podia mudar ... estou farto...........e já me começa a faltar as forças.......que força é essa amigo?
Recomeçamos:
estou fraco, mas não derrotado
15.12.10
GAC - Grupo De Acção Cultural "Vozes na Luta"
GAC - Grupo De Acção Cultural "Vozes na Luta" - wikipedia
A Cantiga É Uma Arma - 1976
Bitrate 128Kb : 33Mb
01-A Cantiga é Uma Arma
02-A Luta do Jornal do Comércio
03-A Luta dos Bairros Camarários
04-Alerta!
05-Aos Soldados e Marinheiros
06-Ronda do Soldadinho
07-Viva a Guiné-Bissau, Livre e Independente
08-Em Vermelho, Em Multidão
Pois Canté!! - 1976
Bitrate 160Kb : 58Mb
01 Pois Canté!!
02 Cantiga sem Maneiras
03 A Herdade do Val Fanado
04 Cantiga do Trabalho
05 Coro das Maçadeiras
06 Maria
07 Olha o Sol a Pôr
08 As Mãos dos Trabalhadores
09 Coro dos Trabalhadores Emigrados
10 Ir e Vir
11 Cantar da Jorna
12 Casas Sim! Barracas Não!
...E Vira Bom - 1977
Bitrate Variable : 55Mb
01-Alvorada
02-Cantiga Raiana
03-Ronda
04-E Vira Bom
05-Tema da Venda do Cepo
06-Quatro Coisas Quer o Amo
07-Moda do Bombo
08-Numa Mão a Enxada
09-De Sol a Sol
10-Murinheira
11-Tema do Auto de Floripes
12-Senhores Ricos e Importantes
13-No Tarrafal Era a Morte
14-Sangue em Flor
15-Reunir Forças
Neste ficheiro incluí três singles, de 1975, do G.A.C. com temas que não saíram em nenhum dos quatro albuns.
Sâo eles:
Até á \"Vitória Final/O Exército do Povo\", \"O Poder ao Lado do Povo/Zé Diogo\" e \"A Internacional/Classe Contra Classe\".
...Ronda de alegria!! - 1978
Bitrate Variable : 38Mb
01-Maridinho
02-Não há mal que não acabe
03-Chula de Penafiel
04-Estas mãos
05-O Alentejo é um jardim
06-Toada de aboiar
07-Oração das almas
08-Moda do emigrante
09-Corridinho
10-O Dom Sebastião Indesejável
11-Ronda
12-Rabanetes
13-Mãe Terra
14-Sementes
15-Ronda de Alegria
3 Singles
ATÉ Á VITÓRIA FINAL/O EXÉRCITO DO POVO - Single (1975)
01-Até á Vitória Final
02-O Exército do Povo
O PODER AO LADO DO POVO/ZÉ DIOGO - Single (1975)
01-O Poder ao Lado do Povo
02-Zé Diogo
A INTERNACIONAL/CLASSE CONTRA CLASSE - Single (1975)
01-A Internacional
02-Classe Contra Classe
10.12.10
Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah?

«Entretém-te meu anjinho, entretém-te, que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam, eles decidem por ti, decidem tudo por ti, se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão, descansa que eles tratam disso, se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos ou hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo! Descansa, não penses em mais nada, que até neste país de pelintras se acho normal haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar! Descontrai baby, come on descontrai, arrefinfa-lhe o Bruce Lee, arrefinfa-lhe a macrobiótica, o biorritmo, o euroscópio, dois ou três ovniologistas, um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando para dar as boas festas às criancinhas!
Piramiza filho, piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto, que assim é que tu te fazes um homenzinho e até já pagas multa se não fores ao recenseamento. Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá! Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound, dá-lhe no pop-xula, pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta forever! Quanto menos souberes às quantas andas melhor para ti, não te chega para o bife? Antes no talho do que na farmácia; não te chega para a farmácia? Antes na farmácia do que no tribunal; não te chega para o tribunal? Antes a multa do que a morte; não te chega para o cangalheiro? Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir, cabrões de vindouros, ah?
Sempre a merda do futuro, a merda do futuro, e eu ah?
Que é que eu ando aqui a fazer? Digam lá, e eu?
(...)
O FMI é uma finta vossa!»
José Mário Branco - FMI7.6.10
Que força é essa, amigo

Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p'ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa, que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Não me digas que não me compr'endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes
(Que força é essa, amigo)
... ... ...
Sérgio Godinho
Sérgio Godinho e José Mário Branco - download mp3
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p'ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro
Que força é essa, que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo
Não me digas que não me compr'endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes
(Que força é essa, amigo)
... ... ...
Sérgio Godinho
Sérgio Godinho e José Mário Branco - download mp3
8.5.10
28.4.10
FMI . 1982-2010
▼ FMI - José Mário Branco ▼
Vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos ... É o internacionalismo monetário!
FMICachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o mortimor do meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attachi-case' sai a solução!
FMI - Não há graça que não faça o FMI
FMI - O bombástico de plástico para si
FMI - Não há força que retorça o FMI
Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!
FMI - Não há truque que não lucre ao FMI
FMI - O heróico paranóico 'hara-quiri'
FMI - Panegírico, pro-lírico daqui
Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais,
- Célulazinhas cinzentas - sempre atentas -
E levas pela tromba se não te pões a pau
um encontrão imediato do 3º grau!
FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...
Entretém-te filho, entretém-te,
não desfolhes em vão este malmequer
que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalte-quer,
messe gigantesca, vem-te bem
vem-te, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama,
vi-me no Águia D'ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho,
vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão,
olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora,
a Música no Coração da Indira Gandi,
olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d'olho,
o respeitinho é muito lindo
e nós somos um povo de respeito, né filho?
Nós somos um povo de respeitinho muito lindo,
saímos à rua de cravo na mão
sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas,
né filho?
Consolida filho, consolida,
enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela
que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde.
Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo,
o teu trabalhinho é muito lindo,
é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho?
O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras,
tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é?
Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar,
para ver se a gente consegue num grande esforço nacional
estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho?
Pois claro!
Estás aí a olhar para mim!
estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto,
pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação
e estás a pensar lá com os teus dedinhos:
Este tipo está-me a gozar,
este gajo quem é que julga que é?
Né filho?
Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente?
A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote!
Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho?
Onde está o teu Extremo Oriente, filho?
Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó,
tu és 'Sepulveda' tu és Adamastor, pois claro,
tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas
com passaporte de coelho, não é filho?
Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida!
Entretém-te filho, entretém-te!
Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho,
trabalhinho, porreirinho da Silva,
e salve-se quem puder que a vida é curta
e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus
com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?
A one, a two, a one two three
FMI - dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...
Come on you son of a bitch!
Come on baby a ver se me comes!
Come on Luís Vaz
Amanda-lhe com os decassílabos que eles
já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas!
E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares,
zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal,zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro,
zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros,
zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer
e acabamos todos numa sardinhada à integralismo Lusitano,
a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen,
ok boss, tudo ok,
estamos numa porreira meu,
um tripe fenomenal, proibido voltar atrás,
viva a liberdade, né filho?
Pois, o irreversível, pois claro,
o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau,
nada será como antes,
agora todos se chateiam de outra maneira, né filho?
Ora que porra, deixa lá correr uma fila
ao menos malta pá, é assim mesmo,
cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é?
Preocupações, crises políticas pá?
A culpa é dos partidos pá!
Esta merda dos partidos é que divide a malta pá,
pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá!
Razão tem o Jaime Neves pá!
(Olha deixaste cair as chaves do carro!)
Pois pá!
(Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?)
É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá!
Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata.
Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril,
esta confusão pá, a malta estava sossegadinha,
a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa...
Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo,
mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah?
Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah?
Quem é que não se calava,
quem é que arriscava coiro e cabelo,
assim mesmo, o que se chama arriscar, ah?
Meia dúzia de líricos, pá,
meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá,
isto é tudo a mesma carneirada!
Oh sr. guarda venha cá, á,
venha ver o que isto é, é,
o barulho que vai aqui, i,
o neto a bater na avó, ó,
deu-lhe um pontapé no cu, né filho?
Tu vais conversando, conversando,
que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode?
Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah?
Estás desiludido com as promessas de Abril, né?
As conquistas de Abril!
Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar
e tu ficaste quietinho, né filho?
E tu fizeste como a avestruz,
enfiaste a cabeça na areia,
não é nada comigo, não é nada comigo, né?
E os da frente que se lixem...
E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver,
é não querer entender nada,
precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho?
Precisas de ter razão,
precisas de atirar as culpas para cima de alguém
e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril,
para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março,
para os do 25 de Novembro, para os do ... que dia é hoje, ah?
FMI - Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...
Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho?
Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade?
Esta merda não anda porque a malta, pá,
a malta não quer que esta merda ande, tenho dito.
A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade?
Quer isto dizer,
há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular!
Somos todos muita bons no fundo, né?
Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né?
Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas,
estas coisas até já nem querem dizer nada,
ismos para aqui, ismos para acolá,
as palavras é só bolinhas de sabão,
parole parole parole
e o Zé é que se lixa, cá o pintas é sempre o mexilhão,
eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol,
pronto,
viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marrazes, Marrazes,
fora o arbitro, gatuno, qual gatuno qual caralho,
razão tinha o Tonico Bastos para se entreter, né filho?
Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs
que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores.
Entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais.
Entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho.
Entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar.
Entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes.
Entretém-te filho e vai para a cama descansado
que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante,
enquanto tu adormeces a não pensar em nada,
milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores,
redes de policia secreta, telefones, carros de assalto,
exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá!
Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II
Tudo corre bem
A ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza
que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas.
A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua
se o teu salário perde valor todos os dias,
Vão-te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra
é como o rio de S. Pedro de Moel
que se some nas areias em plena praia,
ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar
de maneira que se possa dizer:
— Porra, finalmente o rio desaguou!Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma,
Tás tu a ver, que tens tu a ver com isso, não é filho?
Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é?
Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer.
Votas à esquerda moderada nas sindicais,
votas no centro moderado nas deputais,
e votas na direita moderada nas presidenciais!
Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?!
Era o que faltava!
É assim mesmo, julgam que te tragam num mercedes, toma,
para safado, safado e meio, né filho?
Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto,
os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro!
Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega.
Entretém-te meu anjinho, entretém-te,
que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam,
eles decidem por ti, decidem tudo por ti,
Se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão,
descansa que eles tratam disso,
se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos
ou se hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo!
Descansa, não penses em mais nada,
que até neste país de pelintras se acho normal
haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar!
Descontrai baby, come on descontrai,
afinfa-lhe o Bruce Lee, afinfa-lhe a macrobiótica,
o biorritmo, o euroscópio, dois ou três oveneologistas,
um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando
para dar as boas festas às criancinhas!
Piramiza filho,
piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto,
que assim é que tu te fazes um homenzinho
e até já pagas multa se não fores ao recenseamento.
Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá!
Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound,
dá-lhe no pop-xula,
pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta forever!
Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti.
Não te chega para o bife?
Antes no talho do que na farmácia;
Não te chega para a farmácia?
Antes na farmácia do que no tribunal;
Não te chega para o tribunal?
Antes a multa do que a morte;
Não te chega para o cangalheiro?
Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir,
cabrões de vindouros, ah?
Sempre a merda do futuro?
e eu que me quilhe?... pois pá ...Sempre a merda do futuro, a merda do futuro e eu ah?
Que é que eu ando aqui a fazer?
Digam lá, e eu?
José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra,
anda aqui um gajo cheio de boas intenções,
a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois?
É só porrada e mal viver, é?
O menino é mal criado,
o menino é 'pequeno burguês',
o menino pertence a uma classe sem futuro histórico...
Eu sou parvo ou quê?
Quero ser feliz porra,
quero ser feliz agora,
que se foda o futuro,
que se foda o progresso,
mais vale só do que mal acompanhado,
vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa,
Filhos da puta de progressistas
do caralho da revolução que vos foda a todos!
Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego,
não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho,
não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho,
saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto,
vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais
para o raio que vos parta!
Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho,
deixem-me só para sempre,
tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega,
sossego porra, silêncio porra,
deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só,
deixem-me morrer descansado.
Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado,
Eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto,
Eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes
e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa,
deixem-me só porra, rua, larguem-me, desópila o fígado,
arreda, t'arnego Satanás, FILHOS DA PUTA.
Eu quero morrer sozinho ouviram?
Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI,
Eu quero lá saber do FMI,
Eu quero que o FMI se foda,
Eu quero lá saber que o FMI me foda a mim,
Eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se ele tornar a ir para o hospital,
pronto, bardamerda o FMI,
O FMI é só um pretexto vosso seus cabrões,
O FMI não existe,
O FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma,
O FMI é uma finta vossa
para virem para aqui com esse paleio,
Rua, desandem daqui para fora,
A culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa,
a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa,
Oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe ... ... ...
Mãe, eu quero ficar sozinho...
Mãe, não quero pensar mais...
Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora.
Mãe, por favor
Tudo menos a casa em vez de mim,
outro maldito que não sou senão este tempo
que decorre entre fugir de me encontrar
e de me encontrar fugindo,
de quê mãe?
Diz, são coisas que se me perguntem?
Não pode haver razão para tanto sofrimento.
E se inventássemos o mar de volta,
e se inventássemos partir, para regressar.
Partir e aí nessa viajem
ressuscitar da morte às arrecuas que me deste.
Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos,
numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe...
Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto,
lembrar nota a nota o canto das sereias,
lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal,
lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição,
partir aqui com a ciência toda do passado,
partir, aqui, para ficar...
Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria,
de esperança precoce e intranquila,
o azul dos operários da Lisnave a desfilar,
gritando ódio apenas ao vazio,
exército de amor e capacetes,
assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou:
— Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer,
aqui está a minha arma para vos servir.
Assim mesmo, por detrás das colinas
onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores,
as festas e os suores, os bombos de lava-colhos,
assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria,
de esperança precoce e intranquila,
o bater inexorável dos corações produtores, os tambores.
De quem é o carvalhal?
É nosso!
Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso.É nosso!
Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei.
Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena.
Diz lá, valeu a pena a travessia?
Valeu pois.
Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram.
A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez.
Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me 1 dente. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.
Ser solidário assim, par'além da vida...
José Mário Branco - FMI
Nota:FMI foi editado originalmente em 1982 no maxi Som 5051106, e reeditado em 1996 em 'Ser Solidário' ( EMI-Valentim de Carvalho). Aconselha-se vivamente a sua audição.
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