20.2.11

Ernst Jünger



(Heidelberg, 29 de Março de 1895 - Wilflingen, 17 de Fevereiro de 1998)


“A história universal move-se mediante a anarquia. Em suma: o homem livre é anárquico, o anarquista, não.”

“O anarquista é o antagonista do monarca. (…) A contrapartida positiva do anarquista é o anarca. (…) O monarca pretende dominar muitos, ou melhor, todos. O anarca, somente a si mesmo.”


Ernst Jünger, "
Eumeswil"



JÜNGER - UMA VIDA
jaime nogueira pinto
(Revista Futuro Presente nº 31 - Dezembro de 1990)

"É rebelde, por conseguinte, alguém que posto pela lei da natureza em relação com a liberdade, se arrasta no tempo a uma revolta contra o automatismo e a uma recusa de admitir a sua consequência ética - o fatalismo".

Ernst Jünger, "Tratado do Rebelde ou o Recurso às Florestas".

Entre estes dois retratos de Ernst Jünger corre toda a História deste século. O primeiro é de Novembro de 1915; o escritor aparece na frente de Flandres, jovem soldado com o equipamento de guerra das tropas de assalto: punhal, granadas de mão, lança-rockets, lâmpada de bolso. O segundo é de 1977, em Wilflingen: livros, relógios de areia, colecções, um velho senhor que viu, que conheceu, que sabe, que escreveu.

Só os olhos são os mesmos: os olhos que viram os crepúsculos da Grande Guerra, as lutas dos Freikorps, a revolução alemã, Paris ocupada, o apocalipse na Rússia e nas cidades do Reich. E que, depois, de Oriente a Ocidente, da América à África, por entre drogas, insectos, caçadas subtis, livros, memórias, diários, no ciclo de uma vida quase centenária de rebelde e de pensador, de aventureiro e de homem de letras, têm continuado esses itinerários fascinantes de que podemos, por reflexão e leitura, participar.

Porquê esta referência a Jünger nestes dias da última década, do último século, de contagem descendente para um fim de milénio, num tempo em que parecem triunfar as ideologias, os sistemas, as receitas de uma certa forma de mercantilismo comunitário e neo-manchesteriano, "burguês" (na acepção de anti-heróico) tão nos antípodas do significado e do pensamento do autor de "Der Arbeiter", como o concentracionismo colectivista que se decompõe aos nossos olhos? Que tem este aristocrata subtil, este cavaleiro de Dürer dobrado de moralista do Grande Século, este guerreiro filósofo, este artista da palavra e eremita das florestas, que ver com o mundo das multinacionais da soja ou dos electrodomésticos, dos tecnoburocratas de Bruxelas, dos "desafios" japoneses, da predeterminação tecnológica, da morte da política, do fim da História? Que tem para dizer a gerações que vêem a funcionalização crescente, o economismo avassalador, a integração mediática, a degradação da educação, a transformação da cultura em negócio turístico-filantrópico ou político-demagógico?

Nada. E por isso, tudo. Jünger torna-se um símbolo de resistência porque a sua figura e a sua obra se confundem com a aventura mística, mítica e existencial deste século: porque parece não haver mais guerra onde o valor e a coragem individual contem mais que as máquinas e os técnicos; porque não há já sonhos e revoltas, só perspectivas de conjuntura e revoluções programadas. Porque as formas canónicas da banalização jornalística e publicitária vão capturando e matando o imaginário; porque os reinos da quantidade e do automatismo submergem os últimos homens livres, tornando-os resignados, que é uma forma superior de domesticação.

Neste quadro, ganha maior e nova dimensão o universo que ele traçou: não é impunemente que a viagem simbólica retoma os seus direitos na melhor ficção fantástica contemporânea - com uma Ursula Le Guin na sua Trilogia Terramar ou em "The Left Hand of Darkness"; ou no riquíssimo imaginário latino das Américas e em alguma música, pintura e pensamento marginais, às vezes ligados até a movimentos políticos "errados" - ecológicos, etnocêntricos, fundamentalistas religiosos. A resistência às formas de uniformização planetária - hoje a utopia "meritocrática" e liberal do mercado - terá sempre que achar a sua energia nos rebeldes e nos mestres de rebeldes. Ser um pouco como a colónia dos "livros-vivos" descrita por Ray Bradbury, no final de "Fahrnheit 451": longe dos centros de decisão policiada, constituir formas alternativas de contestação, fazer a escolha do rebelde, o caminho da floresta.

Neste mundo de uniformizações festivas e violências implícitas, os perigos que espreitavam e o medo global do Leste parecem, como por um destes gestos do Deus bíblico ou dos mágicos tradicionais, ter-se sumido: numa euforia de 48 bem sucedido, as multidões da outra Europa celebraram nas praças bordadas por igrejas de Praga a Budapeste, de Leipzig a Sofia, o desaparecimento do medo, da ocupação estrangeira, a esperança de vida nova. Outros seus patrícios, homens religiosos desse mesmo Leste, como o Papa e Soljenitsine, dir-lhes-ão para terem cuidado se esperam que, do Ocidente, venham mais que os bens de consumo e o multipartidarismo, formas também, ao fim e ao cabo, de automatismo. A busca da vida, na sua totalidade espiritual e existencial, estará na redescoberta dos valores comunitários, da nação, da família, do homem, de acordo e harmonia com uma natureza e uma técnica que parecem, por adulteradas, apostadas em negá-los. E a questão do rebelde - e do seu itinerário de resistente nas florestas - será tanto mais actual quanto os novos perigos e os novos deuses não são já os espectros policiais e concentracionários do último meio século, mas os demagogos sorridentes das civilizações do consumo, uma "fatalidade" mais advinhada por Tocqueville que por Dostoiewsky e que se torna, hoje, o novo desafio.

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