10.8.14

OLYMPIA


São femininos os símbolos da revolução francesa,
mulheres do mármore ou bronze, poderosas tetas nuas, gorros frígios, bandeiras ao vento.

Mas a revolução proclamou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, quando a
militante revolucionária Olympia de Gouges propôs a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã, 
a guilhotina cortou-lhe a cabeça.

Ao pé do cadafalso, Olympia perguntou:
— Se como mulheres estamos capacitadas para subir na guilhotina,
por que não podemos subir nas tribunas publicas?

Não podiam. Não podiam falar, não podiam votar.

As companheiras de luta de Olympia de Gouges foram trancadas no hospício.
E pouco depois da sua execução, foi a vez de Manon Roland.

Manon era a esposa do ministro do Interior, mas nem isso pôde salvé-la.
Foi condenada pela sua antinatural tendência à actividade política.
Ela tinha traído sua natureza feminina, feita para cuidar do lar e parir filhos valentes,
e havia cometido a mortal insolência de meter o nariz nos masculinos assuntos de estado.

E a guilhotina caiu de novo".

Eduardo Galeano :: Espelhos


Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne — Wikipédia
Déclaration des droits de la femme et de la citoyenne


25.6.14

Alice!!!! Alice!!!!



Yorik





1.° COVEIRO
Era dum camarada bem maluco; a quem julgais que pertenceria?


HAMLET
Em verdade, nao sei.


1.° COVEIRO
Era dum maluco bem grande, mé peste o matasse! Certa ocasião, despejou sobre a minha cabeça uma garrafa de ‘vinho do Reno. Esta caveira, senhor, a caveira que estais a ver, é a de Yorik, o bobo do rei.


HAMLET
Esta caveira?!


1.° COVEIRO
Essa mesma.


HAMLET
Deixa-ma examinar. (Pega na caveira.) Pobre Yorik! Conheci-o, Horacio. Era um rapaz com muita graça, duma alegria infinita e dum espirito vivíssimo; trouxe-me muitas vezes as cavaleiras. E agora, que horror causa à minha imaginação! O meu coração dilata-se! Aqui pendiam os lábios que eu beijei tanta vez! Que é feito neste momento dos trocadllhos? das cabriolas? das canções? desses relâmpagos de gracejos que levantavam em toda a mesa uma tempestade de gargalhadas? Nem uma só facécia ficou para vos rirdes da vossa própria carantonha! A boca completamente fechada! Ide agora dizer ao gabinete da rainha que por mais caio que ponha no rosto há-de ficar com uma cara assim. Fazei-a rir dizendo-lhe isto! Oh! Horácio, diz-me uma coisa, peço-te.


HORÁCIO
Que é, senhor?


HAMLET
Acreditas que Alexandre tenha esta mesma cara na cova?


HORÁCIO
Exactamente a mesma…

HAMLET
E que cheire assim? Fu!… Fu!… (Pousa no chão a caveira.)


HORÁCIO
Absolutamente, meu senhor.


HAMLET
A que grosseiras aplicações podemos descer, Horácio! A nossa imaginação não conseguirá facilmente seguir a viagem das nobres cinzas de Alexandre, até vê-las a tapar o buraco dum tonel!


imagem: Richard Burton, Hamlet


O imaginário museu

 André Malraux, Le Musée Imaginaire (1947). © Maurice Jarnoux, 1953
 Brassaï - Mur chez Bonnard (estampe japonaise), 1946
Robert Doisneau, Le Sculpteur, 1950

artistas

 Modigliani, Picasso, André Salmon
 Pablo Picasso e Jean Cocteau 1950

Joan Miro e Pablo Picasso 1969

18.6.14




"Do I contradict myself? Very well, then I contradict myself,
I am large, I contain multitudes."

Walt Whitman


4.6.14

as gajas boas




As gajas boas vão p'ró céu...

— Sim porque Deus gosta de gajas boas


imagem: Ellen von Unwerth

25.5.14


Sesimbra 1973 por Orlando Batista

gajas boas






As gajas boas vão p'ró céu
as más p’ró inferno
e as outras para parte nenhuma


Meditação na Pastelaria

Ruth Orkin, american girl in italy 1951

"Mas uma senhora é uma senhora. / Só vê a malícia quem a tem. / Uma senhora passa / e ladrar é o seu dever ― se tanto for preciso!"
Alexandre O'Neill, Meditação na Pastelaria

20.4.14

29.3.14

Os 3 Reis Magos


Fulano, Beltrano, Sicrano

Lembro-me do meu pai falar deles amiude, Fulano isto, Sicrano aquilo e Beltrano também... costumava falar deles p'ro bem e p'ro mal, quando assim lhe convinha, enfim!... nunca soube bem porquê, soube-o à dias no instante em que me perguntavam o nome dos três reis magos e respondi Fulano, Sicrano e Beltrano e ficaram todos atónitos a olhar para mim... — É a sério ou estás a inventar?
— A sério, Fulano, Sicrano e Beltrano... — soube-o nesse quimérico instante e em silêncio e com um secreto sorriso fui dando conta de muitas outras memórias...
Era costume encontrá-los ao fim do dia a fumar e a beber copos na taberna do meu pai. Na altura eu era muito miúdo para saber verdadeiramente alguma coisa de reis... já lá vão muitos anos


Imagem: Marcel Marceau

19.3.14

Rainer Maria Rilke (1875-1926)

Rainer Maria Rilke, Sommer 1913. Foto: pa/akg
Rainer Maria Rilke, Villa Strohl-Fern, Roma, 1904.

o homem que casou com uma sereia


Creio que devia começar a trabalhar, agora que aprendo a ver. Tenho vinte e oito anos, e até aqui aconteceu tanto como nada. Vamos repetir: escrevi um estudo sobre Carpaccio, que é mau; um drama chamado «Matrimónio» que quer provar, por meios equívocos, qualquer coisa falsa; e versos. Ah, mas que significam os versos, quando os escrevemos cedo! Devia-se esperar e acumular sentido e doçura durante toda a vida e se possível durante uma longa vida, e então, só no fim, talvez se pudessem escrever dez versos que fossem bons. Porque os versos não são, como as gentes pensam, sentimentos (esses têm-se cedo bastante), — são experiências. Por amor de um verso têm que se ver muitas cidades, homens e coisas, têm que se conhecer os animais, tem que se sentir como as aves voam e que se saber o gesto com que as flores se abrem pela manhã. É preciso poder tornar a pensar em caminhos em regiões desconhecidas, em encontros inesperados e despedidas que se viram vir de longe, — em dias de infância ainda não esclarecidos, nos pais que tivemos que magoar quando nos traziam uma alegria e nós não a compreendemos (era uma alegria para outro), em doenças de infância que começam de maneira tão estranha com tantas transformações profundas e graves, em dias passados em quartos calmos e recolhidos e em manhãs à beira-mar, no próprio mar, em mares, em noites de viagem que passaram sussurrando alto e voaram com todos os astros, — e ainda não é bastante poder pensar em tudo isto. É preciso ter recordações de muitas noites de amor, das quais nenhuma foi igual à outra, de gritos de mulheres no parto e de parturientes leves, brancas e adormecidas que se fecham. Mas também é preciso ter estado ao pé de moribundos, ter ficado sentado ao pé de mortos no quarto com a janela aberta e os ruídos que vinham por acessos. E também não é ainda bastante ter recordações. É preciso saber esquecê-las quando são muitas, e é preciso ter a grande paciência de esperar que elas regressem. Pois que as recordações mesmas ainda não são o que é preciso. Só quando elas se fazem sangue em nós, olhar e gesto, quando já não têm nome e já se não distinguem de nós mesmos, só então é que pode acontecer que, numa hora muito rara, do meio delas se erga a primeira palavra de um verso e saia delas.

Rainer Maria Rilke - Die Aufzeichnungen des Malte Laurids Brigge
Os cadernos de Malte Laurids Brigge
- 3ª ed. O Oiro do dia, 1983, trad. Paulo Quintela



18.3.14

Je est an autre


" quanto mais nos elevamos,
menores nos parecemos aos
olhos daqueles que não sabem voar". 


nietzsche



" desde a revolução industrial, os homens deixaram de lado a busca pelos objetivos mais dignos como seres humanos, e se inclinaram a obter bens materiais. a perda da dignidade provoca a degeneração espiritual, isto é, a morte do espírito humano. uma sociedade que perde suas aspirações humanísticas se tornará fria, insensível, atormentada pelo dogmatismo e pela ignorância."

daisaku ikeda

5.3.14

‘tás-m’ a comprender?



"Lingerie model standing in office, smoking while modeling undergarments."
Chicago, 1949. ~ photo by Stanley Kubrick - Look Magazine

'stás a comprender?

30.11.13

Cuando escuché al docto astrónomo

 Steve Jurvetson. La Vía Láctea.

Cuando escuché al docto astrónomo,
cuando me presentaron en columnas
las pruebas y guarismos,
cuando me mostraron las tablas y diagramas
para medir, sumar y dividir,
cuando escuché al astrónomo discurrir
con gran aplauso de la sala,
qué pronto me sentí inexplicablemente
hastiado,
hasta que me escabullí de mi asiento y
me fui a caminar solo,
en el húmedo y místico aire nocturno,
mirando de rato en rato,
en silencio perfecto a las estrellas.

Cuando escuché al docto astrónomo
Walt Whitman

Versión de Leandro Wolfson 

glass cube galaxy


Using three-dimensional data from Japan’s National Astronomical Observatory, 80,000 stars in the Milky Way is laser-etched in a glass cube. The earth is placed in the located directly in the center.


Lembra-me uma passagem de Auguries of Innocence de William Blake:

“To see a world in a grain of sand,

And a heaven in a wild flower,

Hold infinity in the palm of your hand,

And eternity in an hour.”

Reminds me of a passage from Auguries of Innocence by William Blake

.

22.9.13

Try to remember some details

(born Ludwig Pfueffer, May 3, 1924 – September 22, 2000)



Try to remember some details. Remember the clothing
of the one you love
so that on the day of disaster you'll be able to say: last seen
wearing such-and-such, brown jacket, white hat.
Try to remember some details. For they have no face
and their soul is hidden and their crying
is the same as their laughter,
and their silence and their shouting rise to one height
and their body temperature is between 98 and 104 degrees
and they have no life outside this narrow space
and they have no graven image, no likeness, no memory
and they have paper cups on the day of their rejoicing
and disposable paper plates.

Try to remember some details. For the world
is filled with people who were torn from their sleep
with no one to mend the tear,
and unlike wild beasts they live
each in his lonely hiding place and they die
together on battlefields
and in hospitals.
And the earth will swallow all of them,
good and evil together, like the followers of Korah,
all of them in their rebellion against death,
their mouths open till the last moment,
and blessing and cursing in a single
howl. Try, try
to remember some details.

~
Yehuda Amichai, The Art of Poetry No. 44, Interviewed by Lawrence Joseph (The Paris Review)

o deserto

Lehner & Landrock, 1924

Dios creó una tierra llena de agua para que los hombres pudiesen vivir y una tierra sin agua para que los hombres tengan sed, y un desierto; una tierra con agua y sin ella, para que los hombres encuentren su alma... 

Proverbio tuareg ~ Traducción de Plácido de Prada




“Those who do not remember the past are condemned to repeat it”

George Santayana

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