6.9.12

ó gato


Que fazes por aqui, ó gato?
Que ambiguidade vens explorar?
Senhor de ti, avanças, cauto,
meio agastado e sempre a disfarçar
o que afinal não tens e eu te empresto,
ó gato, pesadelo lento e lesto,
fofo no pêlo, frio no olhar!

De que obscura força és a morada?
Qual o crime de que foste testemunha?
Que deus te deu a repentina unha
que rubrica esta mão, aquela cara?
Gato, cúmplice de um medo
ainda sem palavras, sem enredos,
quem somos nós, teus donos ou teus servos?

Alexandre O'Neill

Hermann Hesse
Aldous Huxley
Allen Ginsberg (1960)
Jack Kerouac
 
William Burroughs
 
Henri Matisse
 
Doris Lessing
 
Henry Cowell
 
Ingrid Bergman
  
Edy Williams
 
(1908)

Красная площадь

Красная площадь - La Plaza Roja, Moscú 1940 by Pyotr Klepikov

construções

 Wenceslau Cifka, 1862 
 Emílio Biel, Construção da Ponte D. Maria, Porto 1876-77
Construção do Santuário de Fátima. Década de 1920.
 Quinta da Regaleira, Sintra, Portugal

À espera do fim



5.9.12

o gajo da máquina...

Pedro Luis Raota
Trás-os-Montes 1964 por Thomas Hoepker 
 
Steve McCurry, Kabul, Afghanistan, 2012

paisagens


«Eu nunca fiz senão sonhar. Tem sido esse, e esse apenas, o sentido da minha vida. Nunca tive outra preocupação verdadeira senão a minha vida interior. As maiores dores da minha vida esbatem-se-me quando, abrindo a janela para dentro de mim, pude esquecer-me na visão do seu movimento.
Nunca pretendi ser senão um sonhador.»

Bernardo Soares - Livro do Desassossego

31.8.12

a óptica de Brunelleschi

A propósito da "linhagem que começa com as maquinarias ópticas de Brunelleschi" de dispositivos "capazes de constrangerem os desempenhos da mão e adequarem-se ao exercício da visão corrigida"('Figuras do Espanto' p. 70):
"To demonstrate the effect of drawing in perspective, Filippo Brunelleschi painted the Baptistery of San Giovanni from about six feet inside the center door of Santa Maria del Fiore. The painting included everything that could be seen from his positioned location. Instead of painting the sky, he affixed a plate of polished silver. He carved a peephole in the painted panel at the perspective vanishing point.
Standing at the same location where he painted the view, he demonstrated the accuracy of perspective drawing by holding the painted panel facing away, with the panel held up to his eye to peer through the hole. With his other hand he held a mirror at arms length in front of and facing the painting so that he was looking directly into the mirror at the reflection of the painting.
The view through the hole into the mirror revealed the painting, drawn in perfect perspective, in the place where the subject of the painting would be viewed. The polished silver plate reflected the actual sky complete with drifting clouds. The view was so realistic that the viewer could not tell the difference between the painted scene and the actual image of the building’s shape and proportion."

    info.aia.org

Kodak

4 de Setembro de 1888; Gerorge Eastman obtem a patente do seu invento 
- a pequena e revolucionária câmara fotográfica "Kodak"
O set da Kodak (1888)
"A Kodak Camera advertisement appeared in the first issue of The Photographic Herald and Amateur Sportsman, November, 1889. The slogan "You press the button, we do the rest" summed up George Eastman's ground breaking snapshot camera system."

Kodak Kodak Kodak Kodak

Kodak's British Head Office on Clerkenwell Road, London, is seen in this photo circa 1902
 

28.8.12

09


09 Shenandoah


39.


De repente, como se um destino médico me houvesse operado de uma cegueira antiga com grandes resultados súbitos, ergo a cabeça, da minha vida anónima, para o conhecimento claro de como existo. E vejo que tudo quanto tenho feito, tudo quanto tenho pensado, tudo quanto tenho sido, é uma espécie de engano e de loucura. Maravilho-me do que consegui não ver. Estranho quanto fui e que vejo que afinal não sou.

Olho, como numa extensão ao sol que rompe nuvens, a minha vida passada; e noto, com um pasmo metafísico, como todos os meus gestos mais certos, as minhas ideias mais claras, e os meus propósitos mais lógicos, não foram, afinal, mais que bebedeira nata, loucura natural, grande desconhecimento. Nem sequer representei.

Representaram-me. Fui, não o actor, mas os gestos dele.

Tudo quanto tenho feito, pensado, sido, é uma soma de subordinações, ou a um ente falso que julguei meu, por que agi dele para fora, ou de um peso de circunstâncias que supus ser o ar que respirava. Sou, neste momento de ver, um solitário súbito, que se reconhece desterrado onde se encontrou sempre cidadão. No mais íntimo do que pensei não fui eu.

Vem-me, então, um terror sarcástico da vida, um desalento que passa os limites da minha individualidade consciente. Sei que fui erro e descaminho, que nunca vivi, que existi somente porque enchi tempo com consciência e pensamento. E a minha sensação de mim é a de quem acorda depois de um sono cheio de sonhos reais, ou a de quem é liberto, por um terramoto, da luz pouca do cárcere a que se habituara.

Pesa-me, realmente me pesa, como uma condenação a conhecer, esta noção repentina da minha individualidade verdadeira, dessa que andou sempre viajando sonolentamente entre o que sente e o que vê.

É tão difícil descrever o que se sente quando se sente que realmente se existe, e que a alma é uma entidade real, que não sei quais são as palavras humanas com que possa defini-lo. Não sei se estou com febre, como sinto, se deixei de ter a febre de ser dormidor da vida. Sim, repito, sou como um viajante que de repente se encontre numa vila estranha sem saber como ali chegou; e ocorrem-me esses casos dos que perdem a memória, e são outros durante muito tempo. Fui outro durante muito tempo - desde a nascença e a consciência -, e acordo agora no meio da ponte, debruçado sobre o rio, e sabendo que existo mais firmemente do que fui até aqui. Mas a cidade é-me incógnita, as ruas novas, e o mal sem cura. Espero, pois, debruçado sobre a ponte, que me passe a verdade, e eu me restabeleça nulo e fictício, inteligente e natural.

Foi um momento, e já passou. Já vejo os móveis que me cercam, os desenhos do papel velho das paredes, o sol pelas vidraças poeirentas. Vi a verdade um momento. Fui um momento, com consciência, o que os grandes homens são com a vida. Recordo-lhes os actos e as palavras, e não sei se não foram também tentados vencedoramente pelo Demónio da Realidade. Não saber de si é viver. Saber mal de si é pensar. Saber de si, de repente, como neste momento lustral, é ter subitamente a noção da mónada íntima, da palavra mágica da alma. Mas essa luz súbita cresta tudo, consume tudo. Deixa-nos nus até de nós.

Foi só um momento, e vi-me. Depois já não sei sequer dizer o que fui. E, por fim, tenho sono, porque, não sei porquê, acho que o sentido é dormir.

 
Bernardo Soares em O Livro do Desassossego

27.8.12

regresso ...e continuo a navegar


Não conhece a arte de navegar
quem nunca navegou no ventre de uma mulher

remou nela, naufragou
e sobreviveu numa das suas praias.


Cristina Peri Rossi

" A Pedra Suspensa "

Gérard Castello-Lopes 1987

“consegui fotografar a pedra e o contrário da pedra, isto é, o peso e a ausência de peso. 
A pedra foi uma espécie de oferta de Deus.”


6.8.12

o último poema.



É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o Sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus,
Fiz sinal de gostar de o ver antes: mais nada.


                                   Alberto Caeiro

(dictated on the day of his death)

4.8.12

É só inquietação, inquietação...


... cá dentro inquietação, inquietação



Inquietação
A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

São flores aos milhões entre ruínas
Meu peito feito campo de batalha
Cada alvorada que me ensinas
Oiro em pó que o vento espalha

Cá dentro inquietação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Ensinas-me fazer tantas perguntas
Na volta das respostas que eu trazia
Quantas promessas eu faria
Se as cumprisse todas juntas

Não largues esta mão no torvelinho
Pois falta sempre pouco para chegar
Eu não meti o barco ao mar
Pra ficar pelo caminho

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que está pra acontecer
Qualquer coisa que eu devia perceber
Porquê, não sei
Porquê, não sei
Porquê, não sei ainda

Cá dentro inqueitação, inquietação
É só inquietação, inquietação
Porquê, não sei
Mas sei
É que não sei ainda

Há sempre qualquer coisa que eu tenho que fazer
Qualquer coisa que eu devia resolver
Porquê, não sei
Mas sei
Que essa coisa é que é linda

José Mário Branco


by ~ Mila Kucher

A Lifetime Photography
 

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