3.8.12
2.8.12
La casa de Asterión
E a rainha deu à luz um filho que se chamou Astérion.
Sei que me acusam de soberba, e talvez de misantropia, talvez de loucura. Tais acusações (que castigarei no devido tempo) são irrisórias. É verdade que não saio de casa, mas também é verdade que as suas portas (cujo número é infinito*) estão abertas dia e noite aos homens e também aos animais. Que entre quem quiser. Não encontrará aqui pompas femininas, nem o bizarro aparato dos palácios, mas sim a quietude e a solidão. Por isso mesmo, encontrará uma casa como não há outra na face da terra. (Mentem os que declaram existir uma parecida no Egipto.) Até os meus detractores admitem que não há um só móvel na casa. Outra afirmação ridícula é que eu, Astérion, seja um prisioneiro. Valerá a pena repetir que não há uma só porta fechada, acrescentar que não existe uma só fechadura? Além disso, num entardecer, pisei a rua; se voltei antes da noite, foi pelo temor que me infundiram os rostos da plebe, rostos descoloridos e iguais, como a mão aberta. Já se tinha posto o sol, mas o desvalido pranto de um menino e as rudes preces do povo disseram que me haviam reconhecido. O povo orava, fugia, prosternava-se; alguns encarapitavam-se no estilóbato do Templo das Tochas, outros juntavam pedras. Um deles, creio, ocultou-se no mar. Não em vão que uma rainha foi minha mãe; não posso confundir-me com o vulgo, ainda que o queira a minha modéstia.
O facto é que sou único. Não me interessa o que um homem possa transmitir a outros homens; como o filósofo, penso que nada é comunicável pela arte da escrita. As enfadonhas e triviais minúcias não encontram espaço no meu espírito, que está capacitado para o grande; jamais retive a diferença entre uma letra e outra. Certa impaciência generosa não consentiu que eu aprendesse a ler. Às vezes deploro-o, porque as noites e os dias são longos.
Claro que não me faltam distracções. Tal como o carneiro que vai investir, corro pelas galerias de pedra até cair no chão, atordoado. Oculto-me à sombra de uma cisterna ou na curva de um corredor e divirto-me como se me procurassem. Há terraços donde me deixo cair, até me ensanguentar. A qualquer hora posso fingir que estou a dormir, com os olhos fechados e a respiração contida. (Às vezes durmo realmente, às vezes já é outra a cor do dia quando abro os olhos.) Mas, de todas as brincadeiras, a que prefiro é a do outro Astérion. Finjo que ele vem visitar-me e que eu lhe mostro a casa. Com grandes reverências, digo-lhe: "Agora voltamos à encruzilhada anterior" ou "Agora desembocamos noutro pátio" ou "Bem dizia eu que te agradaria o pequeno canal" ou "Agora verás uma cisterna que se encheu de areia" ou " já vais ver como o cave se bifurca". As vezes engano-me e rimo-nos os dois, amavelmente.
Não só imaginei esses jogos; tenho também meditado sobre a casa. Todas as partes da casa existem muitas vezes, qualquer lugar é outro lugar. Não há uma cisterna, um pátio, um bebedouro, um portal; são catorze [são infinitos] os portais, bebedouros, pátios, cisternas. A casa é do tamanho do mundo; ou melhor, é o mundo. Todavia, à força de andar por pátios com uma cisterna e com poeirentas galerias de pedra cinzenta, alcancei a rua e vi o templo das Tochas e o mar. Não me apercebi disso até que uma visão nocturna me revelou que também são catorze [são infinitos] os mares e os templos. Tudo existe muitas vezes, catorze vezes, mas duas coisas há no mundo que parecem existir uma única vez: em cima, o intrincado sol; em baixo, Astérion. Talvez eu tenha criado as estrelas e o sol e a enorme casa, mas já não me lembro.
Cada nove anos, entram na casa nove homens para que eu os liberte de todo o mal. Ouço os seus passos ou sua voz no fundo das galerias de pedra e corro alegremente para recebê-los. A cerimónia dura poucos minutos. Um após outro, caem sem que eu ensanguente as mãos. Onde caíram, ficam, e os cadáveres ajudam a distinguir uma galeria das outras. Ignoro quem sejam, mas sei que um deles, na hora da morte, profetizou que um dia chegaria o meu redentor. Desde então a solidão não me magoa, porque sei que o meu redentor vive e por fim se levantará do pó. Se o meu ouvido alcançassem todos os rumores do mundo, eu perceberia os seus passos. Oxalá me leve para um lugar com menos galerias e menos portas. Como será o meu redentor? – pergunto-me. Será um touro ou um homem? Será talvez um touro com cara de homem? Ou será como eu?
O sol da manhã brilhou na espada de bronze. Já não havia qualquer vestígio de sangue.
– Acreditarás, Ariadna? – disse Teseu. – O minotauro mal se defendeu.
A Marte Mosquera Eastman.
* O original diz catorze, mas sobram motivos para inferir que, na boca de Asterión, esse adjectivo numeral vale por infinitos.
1.8.12
de profundis amamus
Ontem
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso
às onze
fumaste
um cigarro
encontrei-te
sentado
ficámos para perder
todos os teus eléctricos
os meus
estavam perdidos
por natureza própria
Andámos
dez quilómetros
a pé
ninguém nos viu passar
excepto
claro
os porteiros
é da natureza das coisas
ser-se visto
pelos porteiros
Olha
como só tu sabes olhar
a rua os costumes
O Público
o vinco das tuas calças
está cheio de frio
e há quatro mil pessoas interessadas
nisso
Não faz mal abracem-me
os teus olhos
de extremo a extremo azuis
vai ser assim durante muito tempo
decorrerão muitos séculos antes de nós
mas não te importes
não te importes
muito
nós só temos a ver
com o presente
perfeito
corsários de olhos de gato intransponível
maravilhados maravilhosos únicos
nem pretérito nem futuro tem
o estranho verbo nosso
mário cesariny de vasconcelos – “de profundis amamus”
Escravos e quase assalariados....
Lewis Hine
Enroladores de charutos na Tabaqueira Englahardt & Co,
Tampa, Florida, Janeiro de 1909
Photograph from the records of the National Child Labor Committee (U.S.)
Library of Congress
31.7.12
A propósito de cigarros
Um dia, porém, o Zé comunicou-nos a sua intenção de abandonar o futebol. Ficámos consternados! Fizemos tudo para tentar demovê-lo.
Em vão! Estava mesmo decidido a retirar-se. Resolvemos, então, fazer-lhe uma festa de homenagem em forma. Como ele merecia! Decidimos também dar-lhe uma prenda. Seria aquilo que ele mais adorava: um maço de cigarros!
Nesse tempo, os cigarros mais baratos do mercado eram os da marca Fortes, a que o povo chamava de Mata Ratos. Havia, depois, duas marcas ao mesmo preço: a Provisórios e a Definitivos. Concorriam uma com a outra. Os Provisórios eram da Companhia Portuguesa de Tabacos e os Definitivos da Tabaqueira. Ambas as marcas se vendiam em maços semelhantes, de dois tamanhos: o pequeno, de 12 cigarros, que custava 8 tostões e o grande, de 24 cigarros, que custava 12 tostões. Num gesto algo simbólico, atendendo à nossa secreta esperança de que a despedida do Zé não fosse definitiva, decidimos oferecer-lhe um maço de Provisórios, dos grandes. Precisávamos de arranjar, entre todos, 12 tostões. Foi tarefa nada fácil! Naquela altura, 12 tostões era muito dinheiro! Vimo-nos aflitos para os arranjar. Mas, finalmente, com um tostão daqui, meio tostão dali, lá os conseguimos.
Na tarde do domingo aprazado para a homenagem, o encontro realizou-se no largo da igreja.
O relógio da torre servia de cronómetro.
— David Paiva Martins - Jogos tradicionais
A Tabaqueira
A Tabaqueira 1927
Fundada em 1927, pelo empresário Alfredo da Silva, “A Tabaqueira” instalou a sua fábrica no concelho de Sintra em 1962.
Em 1976, as empresas Intar e A Tabaqueira, SARL são integradas numa única empresa pública, criando a Tabaqueira - Empresa Industrial de Tabacos, E.P, que passou a sociedade anónima (SA) em 1991 e alterou a sua designação para Tabaqueira, SA em 1999.
O processo de reprivatização decorreu entre 1996 e 2000, quando o consórcio vencedor, liderado por empresas da Philip Morris International, adquiriu a maioria do capital social da empresa.
Desde Janeiro de 2008, organizada em duas “empresas-irmãs”, a Tabaqueira – Empresa Industrial de Tabacos, S.A. continua responsável pela produção de cigarros e produtos afins, enquanto que a Tabaqueira II, S.A. é responsável pela comercialização de cigarros e produtos afins no mercado português, incluindo Madeira e Açores. Produzem e comercializam marcas nacionais e internacionais e é a mais importante organização empresarial no sector do tabaco em Portugal. Com uma produção que já atingiu aproximadamente 25 mil milhões de cigarros por ano, a fábrica exporta cerca de metade da sua produção anual para ser comercializada em mais de 35 mercados.
Fonte: adaptado do site da Tabaqueira
cum catano....
30.7.12
Os passos em volta
As crianças enlouquecem em coisas de poesia.
Escutai um instante como ficam presas
no alto desse grito, como a eternidade as acolhe
enquanto gritam e gritam.
Herberto Helder
Retrato de Herberto Helder por Frederico Penteado 2010
29.7.12
28.7.12
Fervor de Buenos Aires
Avenida Corrientes 1936
Calle Corrientes esquina Uruguay 1936
Bartolomé Mitre y Montevideo, 1936
Corrientes y Pueyrredón 1936
Calle Victoria esquina San José, 1936
Florida y Corrientes 1936
Av. de Mayo entre Bolivar y Per 1936
Fotografias de Horacio Coppola
Buenos Aires 1936
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