17.6.12

Horto dos Incêndios


Homens cegos procuram a visão do amor
onde os dias ergueram esta parede
intransponível

caminham vergados no zumbido dos ventos
com os braços erguidos - cantam

a linha do horizonte é uma lâmina
corta os cabelos dos meteoros - corta
as faces dos homens que espreitam para o palco
nocturno das invisíveis cidades

escorre uma linfa prateada para o coração dos cegos
e o sono atormenta-os com os seus sonhos vazios

adormecem sempre
antes que a cinza dos olhos arda
e se disperse

no fundo do muito longe ouve-se
um lamento escuro
quando a alba se levanta de novo no horto
dos incêndios

prosseguem caminho
com a voz atada por uma corda de lírios
os cegos
são o corpo de um fogo lento - uma sarça
que se acende subitamente por dentro.

Al Berto


Rain dogs


‘In 1967, Anders Petersen started to photograph the late-night regulars (prostitutes, transvestites, drunks, lovers, drug addicts) in a bar in Hamburg, Germany, named Café Lehmitz, and continued that project for three years. 88 b&w photographs in his photobook of the same name was published eight years later in 1978 by Schirmer/Mosel in Germany, and then appeared in France (1979) and Sweden (1982). Café Lehmitz has since become regarded as a seminal book in the history of European photography.

‘The people at the Café Lehmitz had a presence and a sincerity that I myself lacked. It was okay to be desperate, to be tender, to sit all alone or share the company of others. There was a great warmth and tolerance in this destitute setting.’ 

When I looked at Café Lehmitz years afterwards, I suddenly realised it was just like a typical family album. [...] It was a real lesson for me, a young, respectable boy from Sweden. A lesson in how to live.

... ... “After a while, I did not know what I was doing in Café Lehmitz and that is when I felt at home”

- Anders Petersen
- Wikipedia

Café Lehmitz [1967-1970] by Anders Petersen


16.6.12

Umberto Saba



Amei


Amei palavras gastas que ninguém
ousava. Encantou-me a rima flor
amor,
a mais antiga das difíceis do mundo.

Amei a verdade jazente no fundo,
quase um sonho olvidado, que a convulsão
redescobre amiga. Com medo o coração
dela se aproxima, e não mais se farta.

Amei-te a ti que me escutas, e a minha carta
boa deixada ao fim deste meu jogo.

Umberto Saba, "Poesia" Assírio & Alvim, 2010
trad. José Manuel de Vasconcelos


"Marriage on the Rocks"

Frank Sinatra. "Marriage on the Rocks" 1965

Gastão Cruz

DENTRO DA VIDA

Não estamos preparados para nada:
certamente que não para viver
Dentro da vida vamos escolher
o erro certo ou a certeza errada

Que nos redime dessa magoada
agitação do amor em que prazer
nem sempre é o que fica de querer
ser o amador e ser a coisa amada?

Porque ninguém nos salva de não ser
também de ser já nada nos resgata
Não estamos preparados para o nada:
certamente que não para morrer
Gastão Cruz


o gajo da máquina





"O senhor pense, o senhor
ache. O senhor ponha enredo".
João Guimarães Rosa

Foto: Annika Jolene dans son boudoir, Curitiba, 15 de maio de 2007

15.6.12

o pecado mora à porta do convento


"Vicios Privados - Públicas Virtudes"

a vida do dia a dia...



"A ética é estar à altura do que nos acontece"
Gilles Deleuze


The First Photograph


La cour du domaine du Gras is not the first photograph attempted by the French inventor Nicéphore Niépce, but this June 1826 photograph featuring a pigeon house and a barn roof is one of the earliest surviving ones. It is probably the world’s first surviving photograph (although Niépce’s one other photo may have been older than this). The View from the Window at Le Gras was captured at Saint-Loup-de-Varennes on a sheet of 20 × 25 cm oil-treated bitumen. To make what he called a “heliograph,” or sun drawing, Niépce’s camera obscura required an exposure time of more than eight hours, which made the sunlight illuminates the buildings in the pictures on both sides.

Niépce brought this photo to England in 1827 to display his process in the Royal Society and presented the photo later to his host, the British botanist and botanical artist, Francis Bauer. Niépce died without his recognition in 1833 and the photo slipped into obscurity after its last public exhibition in 1898. It was only in 1952 that the photohistorian, Helmut Gernsheim, was able to obtain it for his collection. It is in the Gernsheim Collection for The University of Texas at Austin since 1963.

See Niépce’s dedication at the back of the photograph at UT website.



from Iconic Photos

14.6.12

As memórias d'Hadrien

Bending Bookshelf  Invisible Cities

Na vida dos imperadores há um momento… desesperado em que se descobre que este império que nos parecera a soma de todas as maravilhas é uma ruína sem pés nem cabeça, que a sua corrupção está demasiada gangrenada para que baste o nosso ceptro para a remediar, que o triunfo sobre os soberanos adversários nos faz herdeiros da sua longa ruína.”
(Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, Lisboa, Teorema)

Follow by email