11.3.12

Step across the border

Fred Frith - Step across the border (OST, 1990)


Step Across the Border is a 1990 avant-garde documentary film on English guitarist, composer and improviser Fred Frith. It was written and directed by Nicolas Humbert and Werner Penzel and released in Germany and Switzerland.
Shot in black and white, the 35mm documentary was filmed between 1988 and 1990 in Japan, Italy, France, Germany, England, the United States and Switzerland


Line-up:
Tom Cora - cello, drums, vocals
Zeena Parkins - keyboards, drums, vocals
Bill Laswell - bass
Fred Maher - drums
Bob Ostertag - synthesizer, tape, sampler
Haco - piano, vocals
John Zorn - alto saxophone
Daihachi Oguchi - drums
Rene Lussier - bass
Kevin Norton - drums
Jean Derome - alto saxophone
Hans Bruniusson - drums
Eino Haapala - guitar, drums
Lars Hollmer - keyboards
Tim Hodgkinson - bass clarinet
Pavel Fajt - beercans, guitar, vocals
Iva Bittova - violin, vocals
Tina Curran - bass

25 songs

1990, Rec Rec music



Poema da gare de Astapovo



O velho Leon Tolstoi fugiu de casa aos oitenta anos
E foi morrer na gare de Astapovo!
Com certeza sentou-se a um velho banco,
Um desses velhos bancos lustrosos pelo uso
Que existem em todas as estaçõezinhas pobres do mundo,
Contra uma parede nua...
Sentou-se... e sorriu amargamente
Pensando que
Em toda a sua vida
Apenas restava de seu a Glória,
Esse irrisório chocalho cheio de guizos e fitinhas
Coloridas
Nas mãos esclerosadas de um caduco!
E então a Morte,
Ao vê-lo sozinho àquela hora
Na estação deserta,
Julgou que ele estivesse ali à sua espera,
Quando apenas sentara para descansar um pouco!
A Morte chegou na sua antiga locomotiva
(Ela sempre chega pontualmente na hora incerta...)
Mas talvez não pensou em nada disso, o grande Velho,
E quem sabe se até não morreu feliz: ele fugiu...
Ele fugiu de casa...
Ele fugiu de casa aos oitenta anos de idade...
Não são todos os que realizam os velhos sonhos da infância!

Mário Quintana




10.3.12

dificuldades...




"Se a sua vida está mais difícil, parabéns. Você mudou de fase!"

Antónia Alves
- camareira de teatro

Fotografia de Leszek Brujnowski

no



8.3.12

eu e o outro




"Um dia, ao voltar da casa-de-banho, encontrei o meu quarto fechado à chave e as minhas coisas empilhadas em frente da porta. Isto pode dar-vos uma ideia da prisão de ventre com que eu estava na altura."

Samuel Beckett . "Primeiro Amor"

Arrecadação


ARRECADAÇÃO

Relógio combalido...
minutos eram muitos, tantos, tantos...
e os astros à lareira
aprendem a aquecer-se...

Quantos céus vieram acabar ali!...
e ali estão a enrubescer à chama
e ajeitando a manta nos joelhos...

— E daquela vez que Saturno inclinou de mais o anel?
— E quando passávamos por detrás da lua!
             Na terra toda a gente olhando,
             a querer em nós ler o segredo...

Relógio combalido...
minutos eram muitos, tantos, tantos...
e os astros à lareira
aprendem a aquecer-se
e riem, riem mansamente...

quantos céus vieram acabar ali...

— Há quem não conheça a Via Láctea...
— Sabes? Também lhe chamam Estrada-de-Santiago...
— Disseram-me que o outro dia um homem descobriu a minha idade...

riem todos, riem mansamente...
minutos eram tantos, tantos, tantos...

Da janela da arrecadação
vê-se trabalhar pelo infinito,
uns pouco firmes, outros decididos...

Agora mesmo, um Poeta escreveu que nós andámos no infinito...
e riem devagar como se me vissem muito perto.

No silêncio crepitou a lenha,
há nova cor e variação de brilho.
— Além atrás da porta...
— Ah sim! É uma foice...
muito antiga... muito antiga... Já não corta.

E os astros riem, riem mansamente...
Relógio combalido...
minutos eram muitos, tantos, tantos...

28/7/1940
Jorge de Sena - Perseguição

Amore che vieni, amore che vai


Stanley Kubrick, Portugal 1948


e se numa noite de inverno um viajante





"Man is the missing link between primitive ape and civilized human beings". ~ Stanley Kubrick





a viagem do elefante

[Elephant's tea party, Robur Tea Room, Sydney, 24 March 1939 / Sam Hood]

— ó se fachavor,
eu quero falar com o chefe...!!!

LSD


5.3.12

1 imagem = 1000 palavras... ou mais

"At the Time of the Louisville Flood" - Margaret Bourke-White, 1937


"O mais alto nível de vida do Mundo"
Um retrato da grande depressão. 
Uma fila de pretos para receber o pão e a indiferença branca que os atropela.
"Não há maneira melhor que a maneira americana"
a America e o sonho americano

De ombro na ombreira


De ombro na ombreira
no outro lado outro
ombro na ombreira

Entre ombros nas ombreiras
nenhum assombro:
ombros ombro a ombro
param ombro a ombreira

Quando tudo escombro
ainda todos seremos
ombro na ombreira.

Alexandre O'Neill


Escravos e assalariados


«Karl Marx, um visionário, percebeu que se pode controlar muito melhor um escravo convencendo-o de que ele é um empregado.»
 Nassim Nicholas Taleb     
-      fonte: A Biblioteca de Jacinto

Agora inventaram-se os colaboradores...

4.3.12

Porque hoje é sábado


Com Kierkegaard e mais tarde com Heidegger e Jean-Paul Sartre e Albert Camus, percebeu-se que a existência precede a essência, isto é, o homem primeiro existe, se descobre e só depois é que se define. Com Vinícius de Moraes não podia ser diferente e não há melhor explicação do que esta O dia da criação



Macho e fêmea os criou.
Bíblia: Gênese, 1, 27
I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na Cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

II

Neste momento há um casamento
Porque hoje é sábado.
Há um divórcio e um violamento
Porque hoje é sábado.
Há um homem rico que se mata
Porque hoje é sábado.
Há um incesto e uma regata
Porque hoje é sábado.
Há um espetáculo de gala
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que apanha e cala
Porque hoje é sábado.
Há um renovar-se de esperanças
Porque hoje é sábado.
Há uma profunda discordância
Porque hoje é sábado.
Há um sedutor que tomba morto
Porque hoje é sábado.
Há um grande espírito de porco
Porque hoje é sábado.
Há uma mulher que vira homem
Porque hoje é sábado.
Há criancinhas que não comem
Porque hoje é sábado.
Há um piquenique de políticos
Porque hoje é sábado.
Há um grande acréscimo de sífilis
Porque hoje é sábado.
Há um ariano e uma mulata
Porque hoje é sábado.
Há uma tensão inusitada
Porque hoje é sábado.
Há adolescências seminuas
Porque hoje é sábado.
Há um vampiro pelas ruas
Porque hoje é sábado.
Há um grande aumento no consumo
Porque hoje é sábado.
Há um noivo louco de ciúmes
Porque hoje é sábado.
Há um garden-party na cadeia
Porque hoje é sábado.
Há uma impassível lua cheia
Porque hoje é sábado.
Há damas de todas as classes
Porque hoje é sábado.
Umas difíceis, outras fáceis
Porque hoje é sábado.
Há um beber e um dar sem conta
Porque hoje é sábado.
Há uma infeliz que vai de tonta
Porque hoje é sábado.
Há um padre passeando à paisana
Porque hoje é sábado.
Há um frenesi de dar banana
Porque hoje é sábado.
Há a sensação angustiante
Porque hoje é sábado.
De uma mulher dentro de um homem
Porque hoje é sábado.
Há a comemoração fantástica
Porque hoje é sábado.
Da primeira cirurgia plástica
Porque hoje é sábado.
E dando os trâmites por findos
Porque hoje é sábado.
Há a perspectiva do domingo
Porque hoje é sábado.

III

Por todas essas razões deverias ter sido riscado do Livro das Origens, ó Sexto Dia da Criação.
De fato, depois da Ouverture do Fiat e da divisão de luzes e trevas
E depois, da separação das águas, e depois, da fecundação da terra
E depois, da gênese dos peixes e das aves e dos animais da terra
Melhor fora que o Senhor das Esferas tivesse descansado.
Na verdade, o homem não era necessário
Nem tu, mulher, ser vegetal, dona do abismo, que queres como as plantas, imovelmente e nunca saciada
Tu que carregas no meio de ti o vórtice supremo da paixão.
Mal procedeu o Senhor em não descansar durante os dois últimos dias
Trinta séculos lutou a humanidade pela semana inglesa
Descansasse o Senhor e simplesmente não existiríamos
Seríamos talvez pólos infinitamente pequenos de partículas cósmicas em queda invisível na terra.
Não viveríamos da degola dos animais e da asfixia dos peixes
Não seríamos paridos em dor nem suaríamos o pão nosso de cada dia
Não sofreríamos males de amor nem desejaríamos a mulher do próximo
Não teríamos escola, serviço militar, casamento civil, imposto sobre a renda e missa de sétimo dia,
Seria a indizível beleza e harmonia do plano verde das terras e das águas em núpcias
A paz e o poder maior das plantas e dos astros em colóquio
A pureza maior do instinto dos peixes, das aves e dos animais em cópula.
Ao revés, precisamos ser lógicos, freqüentemente dogmáticos
Precisamos encarar o problema das colocações morais e estéticas
Ser sociais, cultivar hábitos, rir sem vontade e até praticar amor sem vontade
Tudo isso porque o Senhor cismou em não descansar no Sexto Dia e sim no Sétimo
E para não ficar com as vastas mãos abanando
Resolveu fazer o homem à sua imagem e semelhança
Possivelmente, isto é, muito provavelmente
Porque era sábado.

Vinícius de Moraes
, Poemas, Sonetos e Baladas, 1946

Leituras


Reading Pravda
When World War I broke out in 1914, Lenin was opposed to Russia's intervention in the conflict on the grounds that would lead to a fratricidal struggle among the workers across Europe for the benefit of the bourgeoisie and encouraged the Socialists to "transform the imperialist war into a civil war."

Reading Pravda:Biography of Lenin Photos

3.3.12

ir á luta!!



«Dizem que a farda é a melhor das mortalhas.»
«Uma porra. Quem diz isso?»
«Os poetas.»
«Cago nos poetas.»

Fernando Assis Pacheco, Trabalhos e Paixões de Benito Prada

27.1.12

Ausência

Não morri - não!
o computador é que pifou no natal

`É tempo para fazer 1 balanço´

Até breve
miles vale davis que mal acompanhado

21.12.11

prescious things



We have all the time in the world

We have all, the time in the world

Time enought for life

To unfold

All the prescious things

Love has in store


We have all the love in the world

If that's all we have

You will find

We need nothing more



Every step of the way

Will find us

With the cares of the world

Far behind us


We have all the time in the world

Just for love

Nothing more

Nothing less

Only love



Every step of the way

Will find us

With the cares of the world

Far behind us

Yes


We have all the time in the world

Just for love

Nothing more

Nothing less

Only love



Only love

"We Have All The Time In The World"

(Hal David/John Barry)



Louis Armstrong
download MP3



20.12.11

"Sweet Kiwi"


Fiona Pardington, Sweet Kiwi,
- Kai Tahu, Kati Mamoe, Kati Waewae. New Zealander 1961–

from the collection ‘Whanganui Museum’ 2008




Livros

Marguerite Yourcenar (8 June 1903 – 17 December 1987)

O verdadeiro lugar de nascimento é aquele em que se lançou pela primeira vez um olhar inteligente sobre si próprio: as minhas primeiras pátrias foram os livros.
Marguerite Yourcenar - Memórias de Adriano

.

As andorinhas não têm restaurante...


PELA UTOPIA, SEMPRE!




"ELES NÃO SABEM QUE O SONHO É UMA CONSTANTE DA VIDA TÃO CONCRETA E DEFINIDA COMO OUTRA COISA QUALQUER..."


19.12.11

because Life's too short



"Remember what you have seen, because everything forgotten returns to the circling winds."

- Navajo Wind Chant


da viagem do elefante


Good trip!



Auto-retrato


O'Neill (Alexandre), moreno
português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele ONeill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sobre a ternura, bebe de mais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...

Alexandre O'Neill

Alexandre Manuel Vahía de Castro O'Neill
(Lisboa, 19 de Dezembro de 1924 - Lisboa, 21 de Agosto de 1986)



Fernando Lemos - Alexandre O’Neill, 1949

Memória de José Dias Coelho


A José Dias Coelho, pintor e escultor, militante comunista,
assassinado pela PIDE faz hoje 50 anos!
(tinha 38 anos...)



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A Morte Saiu À Rua

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação

José Afonso

18.12.11


Lucien Aigner | Montparnasse Café (1930's)

MESA DE CAFÉ 



Amigos e cerveja é a minha tarde.

A noite alinha-me os ossos. 

Não fica, de tudo o que arde,

Mais do que uns tantos destroços. 



Alguém pintaria a mesa:

Eu prefiro levantar-me.

A minha vida está presa 

A outra espécie de charme. 



Vitorino Nemésio (1901 – 1978) 
Canto de Véspera (1966)

Fotografia
Roger Mayne | Man in a Pub (London, 1958)


Daqui Desta Lisboa

16.12.11

o tabaco da vida

coffee and cigarettes


Desiludidos? Paciência, amigos... Bebamos mais, fumemos, refumemos,


O TABACO DA VIDA


De amor cantando,
sem nele demasiado acreditar,
dei a volta ao coração (demorei anos):
está só - mas sem nenhuma vontade de parar...

Desiludidos? Paciência, amigos...
Bebamos mais, fumemos, refumemos,
entre as mulheres, o tabaco e a vida.
Como cedilhas pendurados que felizes seremos,

exemplares cretinos nesta noite comprida...

Alexandre O'Neill, "Poesias Completas" assírio & alvim, 2000

"Graveagudo"


Alexandre O'Neill, "Graveagudo", 1970

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