9.6.10

Amália e Vinicius

Amália Rodrigues & Vinícius de Moraes - Amália / Vinicius (1970)

LP gravado
numa noite de 1970 em Lisboa na casa de Amália Rodrigues em homenagem ao poeta.
Poesia, fado e música brasileira. Segundo contam as más linguas, (as que não estiveram lá, provavelmente), esta gravação foi feita sem que (aparentemente) ninguém soubesse. O microfone foi escondido dentro de um vaso de flores. A famosa gravação pirata portuguesa...


01 - Retrato de Amália
02 - Defesa de Poeta
03 - Havemos de Ir A Viana
04 - Monólogo de Orfeu
05 - Poema dos Olhos da Amada
06 - Abandono
07 - Formosinha de Elvas
08 - Objecto
09 - O Dia da Criação
10 - Fado Para a Lua de Lisboa
11 - Gaivota
12 - Balada do Mangue
13 - Saudades do Brasil Em Portugal
15 - Para Quê Chorar
16 - O Retrato do Poeta
17 - Fado Português
18 - Autogénese
19 - Mensagem




7.6.10

Campanha Publicitária dos Correios Australianos


"HÁ PALAVRAS QUE NOS BEIJAM"

Há palavras que nos beijam

Como se tivessem boca,

Palavras de amor, de esperança,

De imenso amor, de esperança louca.

Palavras nuas que beijas

Quando a noite perde o rosto,

Palavras que se recusam

Aos muros do teu desgosto.

De repente coloridas

Entre palavras sem cor,

Esperadas, inesperadas

Como a poesia ou o amor.
(O nome de quem se ama

Letra a letra revelado

No mármore distraído,

No papel abandonado)

Palavras que nos transportam

Aonde a noite é mais forte,

Ao silêncio dos amantes

Abraçados contra a morte.

Alexandre O'Neill

Que força é essa ...


2003

Que força é essa, amigo


Vi-te a trabalhar o dia inteiro
construir as cidades pr'ós outros
carregar pedras, desperdiçar
muita força p'ra pouco dinheiro
Vi-te a trabalhar o dia inteiro
Muita força pra pouco dinheiro

Que força é essa, que força é essa
que trazes nos braços
que só te serve para obedecer
que só te manda obedecer
Que força é essa, amigo
que força é essa, amigo
que te põe de bem com outros
e de mal contigo
Que força é essa, amigo
Que força é essa, amigo

Não me digas que não me compr'endes
quando os dias se tornam azedos
não me digas que nunca sentiste
uma força a crescer-te nos dedos
e uma raiva a nascer-te nos dentes
Não me digas que não me compr'endes

(Que força é essa, amigo)
... ... ...
Sérgio Godinho


Sérgio Godinho e José Mário Branco - download mp3


2.6.10

Kim, a bela

Esta foi tirada pelo excelente fotógrafo nova-iorquino Jordan Matter em Dumbo, Brooklyn. A foto transmite duas mensagens:
1. A rapariga tem umas orelhas de Dumbo no lugar das mamas.
2. Está-se borrifando para isso e assume o seu corpo com uma pose e um sorriso confiantes.

Aparecer assim – tão tranquila e imperfeita, saboreando um gelado – só pode ter por base uma conquista extraordinária na vida. 

A modelo chama-se Kim.
"Tinha 11 anos – conta ela – e os meus peitos já eram demasiado grandes para a idade. Isso envergonhava-me. Os miúdos fartavam-se de gozar comigo. Até que o meu avô me disse: Não fiques triste. Tens o aspecto que é suposto teres. Então cresci a saber disto. Por mais tratamentos para emagrecer que fizesse, nunca seria uma Tyra Banks. Então porque não tentar ser a melhor Kim possível?"
Se olharem agora outra vez para a foto, reconhecerão que esta história sempre esteve lá.
A história de uma mulher que assume pacificamente as suas imperfeições em vez da idiota que enche as mamas de silicone como se fossem bóias para usar na piscina.


Momentos íntimos

Foto: Elliott Erwitt

1.6.10

31.5.10

Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message - He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

W. H. Auden, Funeral Blues (1936)

Wystan Hugh Auden(1907-1973)
Funeral Blues, poema mundialmente famoso devido ao filme Quatro Casamentos e um Funeral, onde é recitado.
 Embora tenha sido primeiramente publicado na peça The Ascent of F6 em 1937, quando contava então com cinco estrofes, a versão definitiva foi publicada em 1938, quando Austin o reduziu às famosas quatro estrofes. A versão final foi escrita para ser cantada pelo soprano Hedli Anderson, daí o título.

22.5.10

Tempus Fugit

I've been thinking a lot about time lately. Precious moments with grand-nephews and great-grandmas, sisters and brothers, former students. Memories of Mrs. Bode my Latin Teacher of 45 years ago. As Fate would have it, she introduced me to the Moraie. And she taught me that "Ars longa; Vita brevis." Or as she playfully punned , "Tempus fidgets."

As I write this friends and colleagues across the world are in many different time zones. I can use tools such as this to establish what time it is where they are. But where are they psychologically in terms of time?

How is time perception different as a function of age? As a function of psychological state? Are there (cross) cultural differences? Cross-generational differences?

Walt and I used to talk about perceptions of the passage of time. He was indeed a giant of a person. Father Time. Photos can freeze time. I wonder what he was listening to on the radio? I'm sure he's listening right now surrounded by dogs.


The Songs of Tom Waits


Step Right Up: The Songs of Tom Waits (1995)

1. Drugstore - Old Shoes (6:28)
2. Tindersticks - Mockin' Bird (4:24)
3. Pete Shelley - Better Off Without a Wife (3:32)
4. The Wedding Present - Red Shoes by the Drugstore (2:30)
5. Violent Femmes - Step Right Up (6:29)
6. Alex Chilton - Downtown (4:52)
7. Archers of Loaf - Big Joe and Phantom 309 (4:11)
8. These Immortal Souls - You Can't Unring a Bell (5:50)
9. Jeffrey Lee Pierce - Pasties and a G-String (4:36)
10. Magnapop - Christmas Card from a Hooker in Minneapolis (4:25)
11. Dave Alvin - Ol' 55 (3:35)
12. Pale Saints - Jersey Girl (7:23)
13. Tim Buckley - Martha (3:15)
14. Frente! - Ruby's Arms (4:19)
15. 10,000 Maniacs - I Hope That I Don't Fall in Love with You (3:34)

New Coat of Paint: Songs of Tom Waits (2000)

1. Screamin' Jay Hawkins - Whistlin' Past the Graveyard (3:32)
2. Andre Williams - Pasties and a G-String (2:19)
3. Lydia Lunch / Nels Cline - Heartattack and Vine (5:03)
4. Knoxville Girls - Virginia Avenue (3:20)
5. Dexter Romweber's Infernal Racket - Romeo Is Bleeding (3:30)
6. Lee Rocker - New Coat of Paint (3:40)
7. Botanica - Broken Bicycles (3:45)
8. Preacher Boy - Old Boyfriends (4:42)
9. Sally Norvell - Please Call Me, Baby (5:06)
10. Carla Bozulich - On the Nickel (5:42)
11. Eleni Mandell - Muriel (3:55)
12. The Blacks - Poncho's Lament (4:27)
13. Neko Case - Christmas Card from a Hooker in Minneapolis (3:38)
14. Floyd Dixon - Blue Skies (3:06)


:: The Songs of Tom Waits ::

Password: p-l-m.blogspot.com


13.5.10

Gabriel O Pensador



:: Tás A Ver ::

:: Ao Vivo ::

PASSWORD - oneil


A la resistencia española / A la revolución mexicana

Rolando Alarcón / Inti-illimani
A la resistencia española / A la revolución mexicana
ASFONA / Hit Parade VBP 267 (1969)

Rolando Alarcón:
01 - La paloma
02 - Canción de Grimau
03 - A la huelga
04 - Coplas del tiempo
05 - El gallo rojo
06 - Canción de soldados

Inti-Illimani:
07 - Nuestro México, febrero 23
08 - La Valentina
09 - El Siete Leguas
10 - Soldado revolucionario
11 - La cucaracha
12 - La Adelita

:: A la resistencia española / A la revolución mexicana ::


11.5.10

Guernica

Bombardeamento de Guernica 26-04-1937

Não havia um só canhão de defesa em toda a cidade
Atiraram as bombas no mercado

I
Entra pela janela
o anjo camponês;
com a terceira luz na mão;
minucioso, habituado
aos interiores de cereal,
aos utensílios
que dormem na fuligem;
os seus olhos rurais
não compreendem bem os símbolos
desta colheita: hélices,
motores furiosos;
e estende mais o braço; planta
no ar, como uma árvore,
a chama do candeeiro.

II
As outras duas luzes
são lisas, ofuscantes;
lembram a cal, o zinco branco
nas pedreiras;
ou nos umbrais
de cantaria aparelhada; bruscamente;
a arder; há o mesmo
branco na lâmpada do tecto;
o mesmo zinco
nas máquinas que voam
fabricando o incêndio; e assim,
por toda a parte,
a mesma cal mecânica
vibra os seus cutelos.

III
Ao alto; à esquerda;
onde aparece
a linha da garganta,
a curva distendida como
o gráfico dum grito;
o som é impossível; impede-o pelo menos
o animal fumegante;
com o peso das patas, com os longos
músculos negros, sem esquecer
o sal silencioso
no outro coração:
por cima dele, inútil; a mão desta
mulher de joelhos
entre as pernas do touro.

IV
Em baixo, contra o chão
de tijolo queimado,
os fragmentos duma estátua;
ou o construtor da casa
já sem fio de prumo,
barro, sestas pobres? quem
tentou salvar o dia,
o seu resíduo
de gente e poucos bens? opor
à química da guerra,
aos reagentes dissolvendo
a construção, as traves,
este gládio,
esta palavra arcaica?

V
Mesa, madeira posta
próximo dos homens pelo corte
da plaina,
a lixa ríspida,
a cera sobre o betume, os nós,
e dedos tacteando
as últimas rugosidades;
morosamente; com o amor
do carpinteiro ao objecto
que nasceu
para viver na casa;
no sítio destinado há muito;
como se fosse, quase,
uma criança da família.

VI
O pássaro; a sua anatomia
rápida; forma cheia de pressa
que se condensa
apenas o bastante
para ser visível no céu,
sem o ferir;
modelo doutros voos: nuvens;
e vento leve, folhas,
agora, atónito, abre as asas
no deserto da mesa;
tenta gritar às falsas aves
que a morte é diferente:
cruzar o céu com a suavidade
dum rumor e sumir-se.

VII
Cavalo, reprodutor
de luz nos prados, quando
respira, os brônquios;
dois frémitos de soro; exalam
essa névoa
que o primeiro sol transforma
numa crina trémula
sobre pastos e éguas; mas aqui
marcou-o o ferro
dos lavradores que o anjo ignora;
e endureceu-o de tal modo
que se entrega;
como as bestas bíblicas;
ao tétano, ao furor.

VIII
Outra mulher: o susto
a entrar no pesadelo;
oprime-a o ar, e cada passo
é apenas peso: seios
donde os mamilos pendem,
gotas duras
de leite e medo; quase pedras;
memória tropeçando
em árvores, parentes,
num descampado vagaroso;
e amor também:
espécie de peso que produz
por dentro da mulher
os mesmos passos densos.

IX
Casas desidratadas
no alto forno; e olhando-as,
momentos antes de ruírem,
o anjo desolado
pensa: entre detritos
sem nenhum cerne ou água,
como anunciar
outra vez o milagre das salas;
dos quartos; crescendo cisco
a cisco, filho a filho?
as máquinas estranhas,
os motores com sede, nem sequer
beberam o espírito das minhas casas;
evaporaram-no apenas.

X
O incêndio desce;
do canto superior direito;
sobre os sótãos,
os degraus das escadas
a oscilar,
hélices, vibrações, percutem os alicerces;
e o fogo, veloz agora, fende-os, desmorona
toda a arquitectura,
as paredes áridas desabam
mas o seu desenho
sobrevive no ar; sustém-no
a terceira mulher; a última; com os braços
erguidos, com o suor da estrela
tatuada na testa.

Poema de Carlos de Oliveira, sobre Guernica de Picasso


Conta-se que um oficial das SS lhe perguntou, apontando para a pintura:
-Foi o senhor que fez isso?
Picasso respondeu:
-Não. Foi o senhor.

O quadro foi pintado para a Exposição Mundial de Paris, em 1937
Está hoje no Museu Rainha Sofia, em Madrid


"A minha é maior que a tua!"

10.5.10

Clarice Lispector





Clarice Lispector nasceu num navio, quando os seus pais imigravam da Ucrânia para o Brasil, e mesmo pisando solo brasileiro, o espírito de Clarice é livre, pois a sua nacionalidade é a do mar, a das águas que banham continentes e regram florestas e plantações.
Esta é uma singela homenagem a uma das maiores poetisas e escritoras da literatura brasileira. As suas palavras são do mundo ao mesmo tempo que são minhas, são tuas e de quem estiver pronto e disponível para se banhar nesse mar de poesias, sentimentos e palavras, como ela definiu nesta frase:
“Renda-se, como eu me rendi.
Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei.
Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento.”


Para todos aqueles que não tem medo de viver. Para ti, em especial.


8.5.10

Deixem-me em paz porra

25 de Abril Sempre

«Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora. Mãe, por favor, tudo menos a casa em vez de mim, outro maldito que não sou senão este tempo que decorre entre fugir de me encontrar e de me encontrar fugindo, de quê mãe? Diz, são coisas que se me perguntem? Não pode haver razão para tanto sofrimento. E se inventássemos o mar de volta, e se inventássemos partir, para regressar. Partir e aí nessa viajem ressuscitar da morte às arrecuas que me deste. Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos, numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe... Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto, lembrar nota a nota o canto das sereias, lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal, lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição, partir aqui com a ciência toda do passado, partir, aqui, para ficar... (...) Diz lá, valeu a pena a travessia? Valeu pois

José Mário Branco «FMI»

Imagem: 25 de Abril de 1974


O Caminho da Serpente

O CAMINHO DA SERPENTE

"Reconhecer a verdade como verdade, e ao mesmo tempo como erro;
viver os contrários, não os aceitando; sentir tudo de todas as maneiras, e não ser nada, no fim, senão o entendimento de tudo [...]".



"Ela atravessa todos os mistérios e não chega a conhecer nenhum, pois lhes conhece a ilusão e a lei. Assume formas com que, e em que, se nega, porque, como passa sem rasto recto, pode deixar o que foi, visto que verdadeiramente o não foi. Deixa a Cobra do Éden como pele largada, as formas que assume não são mais que peles que larga.
E quando, sem ter tido caminho, chega a Deus, ela, como não teve caminho, passa para além de Deus, pois chegou ali de fora"



- Fernando Pessoa, O Caminho da Serpente


o Papalagui nunca tem tempo

"O Papalagui nunca está contente com o tempo que lhe coube e censura o Grande Espírito o não lhe ter dado mais. Chega mesmo a blafesmar contra Deus e a sua grande sabedoria, dividindo e subdividindo cada novo dia que nasce [...] As várias partes têm todas elas um nome: segundo, minuto, hora [...] É uma coisa muito confusa que eu na realidade nunca percebi, pois me indispõe reflectir mais que o devido sobre questões tão pueris. O papalagui, no entanto, faz disso toda uma ciência. [...] Ao ouvir o barulho da máquina do tempo (os relógios de torre), queixa-se o papalagui assim: que pesado fardo, mais uma hora que passou! E ao dizê-lo mostra geralmente um ar triste [...] No entanto, logo a seguir principia outra hora! Como nunca fui capaz de entender isto, julgo tratar-se de uma doença grave! Como vivem obececados com o tempo, todos os papalguis sabem com exactidão quantas vezes nasceu o sol e a lua desde que viram pela primeira vez a luz do dia. [...] Reparei, muitas vezes, que eles, no meu lugar, se sentiam envergonhados quando, ao perguntarem-me que idade tinha, eu não era capaz de responder a tal pergunta, que só me dava vontade de rir! [...] Isto de se perguntar qual o número de Luas apresenta grandes perigos, pois foi assim que se acabou por determinar quantas luas dura em geral a vida de um homem. Ora aconteçe que cada um, sempre muito atento a isso, passadas que foram já inúmeras luas dirá: pronto! Não tarda que morra! Nada mais lhe causa alegria e, e facto, acaba por morrer daí a pouco tempo. [...] A meu ver é precisamente por o papalagui tentar reter o tempo com as mãos, que ele se lhe escapa como uma serpente em mão molhada. O papalagui nunca deixa que o tempo venha ao seu encontro. [...] Oh meus queridos irmãos! Nós nunca nos queixamos do tempo [...] Se algum de nós há aí que a quem falte tempo, diga! [...] Sabemos que atingiremos o nosso alvo, e que muito embora ignoremos quantas luas se passaram, o Grande Espírito nos chamará quando lhe aprouver. [...] Devemos curar o papalagui da sua loucura e desvario, para que ele volte a ter noção do verdadeiro tempo que tem perdido."

28.4.10

FMI . 1982-2010


FMI - José Mário Branco

Vou-vos mostrar mais um pedaço da minha vida, um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro, numa noite de Fevereiro de 79, e que talvez tenha um ou outro pormenor que já não é muito actual. Eu vou-vos dar o texto tal e qual como eu o escrevi nessa altura, sem ter modificado nada, por isso vos peço que não se deixem distrair por esses pormenores que possam ser já não muito actuais e que isso não contribua para desviar a vossa atenção do que me parece ser o essencial neste texto.
Chama-se FMI.
Quer dizer: Fundo Monetário Internacional.
Não sei porque é que se riem, é uma organização democrática dos países todos, que se reúnem, como as pessoas, em torno de uma mesa para discutir os seus assuntos, e no fim tomar as decisões que interessam a todos ... É o internacionalismo monetário!


FMI
Cachucho não é coisa que me traga a mim
Mais novidade do que lagostim
Nariz que reconhece o cheiro do pilim
Distingue bem o mortimor do meirim
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Há tanto nesta terra que ainda está por fazer
Entrar por aí a dentro, analisar, e então
Do meu 'attachi-case' sai a solução!

FMI - Não há graça que não faça o FMI
FMI - O bombástico de plástico para si
FMI - Não há força que retorça o FMI

Discreto e ordenado mas nem por isso fraco
Eis a imagem 'on the rocks' do cancro do tabaco
Enfio uma gravata em cada fato-macaco
E meto o pessoal todo no mesmo saco
A produtividade, ora aí está, quer dizer
Não ando aqui a brincar, não há tempo a perder
Batendo o pé na casa, espanador na mão
É só desinfectar em superprodução!

FMI - Não há truque que não lucre ao FMI
FMI - O heróico paranóico 'hara-quiri'
FMI - Panegírico, pro-lírico daqui

Palavras, palavras, palavras e não só
Palavras para si e palavras para dó
A contas com o nada que swingar o sol-e-dó
Depois a criadagem lava o pé e limpa o pó
A produtividade, ora nem mais,
- Célulazinhas cinzentas - sempre atentas -
E levas pela tromba se não te pões a pau
um encontrão imediato do 3º grau!

FMI Não há lenha que detenha o FMI
FMI Não há ronha que envergonhe o FMI
FMI ...

Entretém-te filho, entretém-te,
não desfolhes em vão este malmequer
que bem-te-quer, mal-te-quer, vem-te-quer, ovomalte-quer,
messe gigantesca, vem-te bem
vem-te, vi-me na cozinha, vi-me na casa-de-banho, vi-me no Politeama,
vi-me no Águia D'ouro, vi-me em toda a parte, vem-te filho,
vem-te comer ao olho, vem-te comer à mão,
olha os pombinhos pneumáticos que te orgulham por esses cartazes fora,
a Música no Coração da Indira Gandi,
olha o Muchê Dyane que te traz debaixo d'olho,
o respeitinho é muito lindo
e nós somos um povo de respeito, né filho?
Nós somos um povo de respeitinho muito lindo,
saímos à rua de cravo na mão
sem dar conta de que saímos à rua de cravo na mão a horas certas,
né filho?
Consolida filho, consolida,
enfia-te a horas certas no casarão da Gabriela
que o malmequer vai-te tratando do serviço nacional de saúde.
Consolida filho, consolida, que o trabalhinho é muito lindo,
o teu trabalhinho é muito lindo,
é o mais lindo de todos, como o astro, não é filho?
O cabrão do astro entra-te pela porta das traseiras,
tu tens um gozo do caraças, vais dormir entretido, não é?
Pois claro, ganhar forças, ganhar forças para consolidar,
para ver se a gente consegue num grande esforço nacional
estabilizar esta destabilização filha-da-puta, não é filho?
Pois claro!
Estás aí a olhar para mim!
estás a ver-me dar 33 voltinhas por minuto,
pagaste o teu bilhete, pagaste o teu imposto de transação
e estás a pensar lá com os teus dedinhos:
Este tipo está-me a gozar,
este gajo quem é que julga que é?
Né filho?
Pois não é verdade que tu és um herói desde de nascente?
A ti não é qualquer totobola que te enfia o barrete, meu grande safadote!
Meu Fernão Mendes Pinto de merda, né filho?
Onde está o teu Extremo Oriente, filho?
Ah-ni-qui-bé-bé, ah-ni-qui-bó-bó,
tu és 'Sepulveda' tu és Adamastor, pois claro,
tu sozinho consegues enrabar as Nações Unidas
com passaporte de coelho, não é filho?
Mal eles sabem, pois é, tu sabes o que é gozar a vida!
Entretém-te filho, entretém-te!
Deixa-te de políticas que a tua política é o trabalho,
trabalhinho, porreirinho da Silva,
e salve-se quem puder que a vida é curta
e os santos não ajudam quem anda para aqui a encher pneus
com este paleio de Sanzala e ritmo de pop-xula, não é filho?
A one, a two, a one two three

FMI - dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Come on you son of a bitch!
Come on baby a ver se me comes!
Come on Luís Vaz
Amanda-lhe com os decassílabos que eles
já vão ver o que é meterem-se com uma nação de poetas!
E zás, enfio-te o Manuel Alegre no Mário Soares,
zás, enfio-te o Ary dos Santos no Álvaro de Cunhal,
zás, enfio-te a Natalia Correia no Sá Carneiro,
zás, enfio-te o Zé Fanha no Acácio Barreiros,
zás, enfio-te o Pedro Homem de Melo no Parque Mayer
e acabamos todos numa sardinhada à integralismo Lusitano,
a estender o braço, meio Rolão Preto, meio Steve McQueen,
ok boss, tudo ok,
estamos numa porreira meu,
um tripe fenomenal, proibido voltar atrás,
viva a liberdade, né filho?
Pois, o irreversível, pois claro,
o irreversívelzinho, pluralismo a dar com um pau,
nada será como antes,
agora todos se chateiam de outra maneira, né filho?
Ora que porra, deixa lá correr uma fila
ao menos malta pá, é assim mesmo,
cada um a curtir a sua, podia ser tão porreiro, não é?
Preocupações, crises políticas pá?
A culpa é dos partidos pá!
Esta merda dos partidos é que divide a malta pá,
pois pá, é só paleio pá, o pessoal na quer é trabalhar pá!
Razão tem o Jaime Neves pá!
(Olha deixaste cair as chaves do carro!)
Pois pá!
(Que é essa orelha de preto que tens no porta-chaves?)
É pá, deixa-te disso, não destabilizes pá!
Eh, faz favor, mais uma bica e um pastel de nata.
Uma porra pá, um autentico desastre o 25 de Abril,
esta confusão pá, a malta estava sossegadinha,
a bica a 15 tostões, a gasosa a sete e coroa...
Tá bem, essa merda da pide pá, Tarrafais e o carágo,
mas no fim de contas quem é que não colaborava, ah?
Quantos bufos é que não havia nesta merda deste país, ah?
Quem é que não se calava,
quem é que arriscava coiro e cabelo,
assim mesmo, o que se chama arriscar, ah?
Meia dúzia de líricos, pá,
meia dúzia de líricos que acabavam todos a fugir para o estrangeiro, pá,
isto é tudo a mesma carneirada!
Oh sr. guarda venha cá, á,
venha ver o que isto é, é,
o barulho que vai aqui, i,
o neto a bater na avó, ó,
deu-lhe um pontapé no cu, né filho?
Tu vais conversando, conversando,
que ao menos agora pode-se falar, ou já não se pode?
Ou já começaste a fazer a tua revisãozinha constitucional tamanho familiar, ah?
Estás desiludido com as promessas de Abril, né?
As conquistas de Abril!
Eram só paleio a partir do momento que tas começaram a tirar
e tu ficaste quietinho, né filho?
E tu fizeste como a avestruz,
enfiaste a cabeça na areia,
não é nada comigo, não é nada comigo, né?
E os da frente que se lixem...
E é por isso que a tua solução é não ver, é não ouvir, é não querer ver,
é não querer entender nada,
precisas de paz de consciência, não andas aqui a brincar, né filho?
Precisas de ter razão,
precisas de atirar as culpas para cima de alguém
e atiras as culpas para os da frente, para os do 25 de Abril,
para os do 28 de Setembro, para os do 11 de Março,
para os do 25 de Novembro, para os do ... que dia é hoje, ah?

FMI - Dida didadi dadi dadi da didi
FMI ...

Não há português nenhum que não se sinta culpado de qualquer coisa, não é filho?
Todos temos culpas no cartório, foi isso que te ensinaram, não é verdade?
Esta merda não anda porque a malta, pá,
a malta não quer que esta merda ande, tenho dito.
A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém, não é isto verdade?
Quer isto dizer,
há culpa de todos em geral e não há culpa de ninguém em particular!
Somos todos muita bons no fundo, né?
Somos todos uma nação de pecadores e de vendidos, né?
Somos todos, ou anti-comunistas ou anti-faxistas,
estas coisas até já nem querem dizer nada,
ismos para aqui, ismos para acolá,
as palavras é só bolinhas de sabão,
parole parole parole
e o Zé é que se lixa, cá o pintas é sempre o mexilhão,
eu quero lá saber deste paleio vou mas é ao futebol,
pronto,
viva o Porto, viva o Benfica, Lourosa, Lourosa, Marrazes, Marrazes,
fora o arbitro, gatuno, qual gatuno qual caralho,
razão tinha o Tonico Bastos para se entreter, né filho?
Entretém-te filho, com as tuas viúvas e as tuas órfãs
que o teu delegado sindical vai tratando da saúde aos administradores.
Entretém-te, que o ministro do trabalho trata da saúde aos delegados sindicais.
Entretém-te filho, que a oposição parlamentar trata da saúde ao ministro do trabalho.
Entretém-te, que o Eanes trata da saúde à oposição parlamentar.
Entretém-te, que o FMI trata da saúde ao Eanes.
Entretém-te filho e vai para a cama descansado
que há milhares de gajos inteligentes a pensar em tudo neste mesmo instante,
enquanto tu adormeces a não pensar em nada,
milhares e milhares de tipos inteligentes e poderosos com computadores,
redes de policia secreta, telefones, carros de assalto,
exércitos inteiros, congressos universitários, eu sei lá!
Podes estar descansado que o Teng Hsiao-Ping está a tratar de ti com o Jimmy Carter, o Brezhnev está a tratar de ti com o João Paulo II
Tudo corre bem
A ver quem se vai abotoar com os 25 tostões de riqueza
que tu vais produzir amanhã nas tuas oito horas.
A ver quem vai ser capaz de convencer de que a culpa é tua e só tua
se o teu salário perde valor todos os dias,
Vão-te convencer de que a culpa é só tua se o teu poder de compra
é como o rio de S. Pedro de Moel
que se some nas areias em plena praia,
ali a 10 metros do mar em maré cheia e nunca consegue desaguar
de maneira que se possa dizer:

— Porra, finalmente o rio desaguou!Hão te convencer de que a culpa é tua e tu sem culpa nenhuma,
Tás tu a ver, que tens tu a ver com isso, não é filho?
Cada um que se vá safando como puder, é mesmo assim, não é?
Tu fazes como os outros, fazes o que tens a fazer.
Votas à esquerda moderada nas sindicais,
votas no centro moderado nas deputais,
e votas na direita moderada nas presidenciais!
Que mais querem eles, que lhe ofereças a Europa no natal?!
Era o que faltava!
É assim mesmo, julgam que te tragam num mercedes, toma,
para safado, safado e meio, né filho?
Nem para a frente nem para trás e eles que tratem do resto,
os gatunos, que são pagos para isso, né? Claro!
Que se lixem as alternativas, para trabalho já me chega.
Entretém-te meu anjinho, entretém-te,
que eles são inteligentes, eles ajudam, eles emprestam,
eles decidem por ti, decidem tudo por ti,
Se hás-de construir barcos para a Polónia ou cabeças de alfinete para a Suécia, se hás-de plantar tomate para o Canada ou eucaliptos para o Japão,
descansa que eles tratam disso,
se hás-de comer bacalhau só nos anos bissextos
ou se hás-de beber vinho sintético de Alguidares-de-Baixo!
Descansa, não penses em mais nada,
que até neste país de pelintras se acho normal
haver mãos desempregadas e se acha inevitável haver terras por cultivar!
Descontrai baby, come on descontrai,
afinfa-lhe o Bruce Lee, afinfa-lhe a macrobiótica,
o biorritmo, o euroscópio, dois ou três oveneologistas,
um gigante da ilha de Páscoa e uma Grace do Mónaco de vez em quando
para dar as boas festas às criancinhas!
Piramiza filho,
piramiza, antes que os chatos fujam todos para o Egipto,
que assim é que tu te fazes um homenzinho
e até já pagas multa se não fores ao recenseamento.
Pois pá, isto é um país de analfabetos, pá!
Dá-lhe no Travolta, dá-lhe no disco-sound,
dá-lhe no pop-xula,
pop-xula pop-xula, iehh iehh, J. Pimenta forever!
Quanto menos souberes a quantas andas melhor para ti.
Não te chega para o bife?
Antes no talho do que na farmácia;
Não te chega para a farmácia?
Antes na farmácia do que no tribunal;
Não te chega para o tribunal?
Antes a multa do que a morte;
Não te chega para o cangalheiro?
Antes para a cova do que para não sei quem que há-de vir,
cabrões de vindouros, ah?
Sempre a merda do futuro?
e eu que me quilhe?... pois pá ...
Sempre a merda do futuro, a merda do futuro e eu ah?
Que é que eu ando aqui a fazer?
Digam lá, e eu?
José Mário Branco, 37 anos, isto é que é uma porra,
anda aqui um gajo cheio de boas intenções,
a pregar aos peixinhos, a arriscar o pêlo, e depois?
É só porrada e mal viver, é?
O menino é mal criado,
o menino é 'pequeno burguês',
o menino pertence a uma classe sem futuro histórico...
Eu sou parvo ou quê?
Quero ser feliz porra,
quero ser feliz agora,
que se foda o futuro,
que se foda o progresso,
mais vale só do que mal acompanhado,
vá mandem-me lavar as mãos antes de ir para a mesa,
Filhos da puta de progressistas
do caralho da revolução que vos foda a todos!
Deixem-me em paz porra, deixem-me em paz e sossego,
não me emprenhem mais pelos ouvidos caralho,
não há paciência, não há paciência, deixem-me em paz caralho,
saiam daqui, deixem-me sozinho, só um minuto,
vão vender jornais e governos e greves e sindicatos e policias e generais
para o raio que vos parta!
Deixem-me sozinho, filhos da puta, deixem só um bocadinho,
deixem-me só para sempre,
tratem da vossa vida que eu trato da minha, pronto, já chega,
sossego porra, silêncio porra,
deixem-me só, deixem-me só, deixem-me só,
deixem-me morrer descansado.
Eu quero lá saber do Artur Agostinho e do Humberto Delgado,
Eu quero lá saber do Benfica e do bispo do Porto,
Eu quero se lixe o 13 de Maio e o 5 de Outubro e o Melo Antunes
e a rainha de Inglaterra e o Santiago Carrilho e a Vera Lagoa,
deixem-me só porra, rua, larguem-me, desópila o fígado,
arreda, t'arnego Satanás, FILHOS DA PUTA.
Eu quero morrer sozinho ouviram?
Eu quero morrer, eu quero que se foda o FMI,
Eu quero lá saber do FMI,
Eu quero que o FMI se foda,
Eu quero lá saber que o FMI me foda a mim,
Eu vou mas é votar no Pinheiro de Azevedo se ele tornar a ir para o hospital,
pronto, bardamerda o FMI,
O FMI é só um pretexto vosso seus cabrões,
O FMI não existe,
O FMI nunca aterrou na Portela coisa nenhuma,
O FMI é uma finta vossa
para virem para aqui com esse paleio,
Rua, desandem daqui para fora,
A culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa,
a culpa é vossa, a culpa é vossa, a culpa é vossa,
Oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe, oh mãe ... ... ...

Mãe, eu quero ficar sozinho...
Mãe, não quero pensar mais...
Mãe, eu quero morrer mãe.
Eu quero desnascer, ir-me embora, sem ter que me ir embora.
Mãe, por favor
Tudo menos a casa em vez de mim,
outro maldito que não sou senão este tempo
que decorre entre fugir de me encontrar
e de me encontrar fugindo,
de quê mãe?
Diz, são coisas que se me perguntem?
Não pode haver razão para tanto sofrimento.
E se inventássemos o mar de volta,
e se inventássemos partir, para regressar.
Partir e aí nessa viajem
ressuscitar da morte às arrecuas que me deste.
Partida para ganhar, partida de acordar, abrir os olhos,
numa ânsia colectiva de tudo fecundar, terra, mar, mãe...
Lembrar como o mar nos ensinava a sonhar alto,
lembrar nota a nota o canto das sereias,
lembrar o depois do adeus, e o frágil e ingénuo cravo da Rua do Arsenal,
lembrar cada lágrima, cada abraço, cada morte, cada traição,
partir aqui com a ciência toda do passado,
partir, aqui, para ficar...

Assim mesmo, como entrevi um dia, a chorar de alegria,
de esperança precoce e intranquila,
o azul dos operários da Lisnave a desfilar,
gritando ódio apenas ao vazio,
exército de amor e capacetes,
assim mesmo na Praça de Londres o soldado lhes falou:
— Olá camaradas, somos trabalhadores, eles não conseguiram fazer-nos esquecer,
aqui está a minha arma para vos servir.
Assim mesmo, por detrás das colinas
onde o verde está à espera se levantam antiquíssimos rumores,
as festas e os suores, os bombos de lava-colhos,
assim mesmo senti um dia, a chorar de alegria,
de esperança precoce e intranquila,
o bater inexorável dos corações produtores, os tambores.

De quem é o carvalhal?
É nosso!

Assim te quero cantar, mar antigo a que regresso.
Neste cais está arrimado o barco sonho em que voltei.
Neste cais eu encontrei a margem do outro lado, Grandola Vila Morena.
Diz lá, valeu a pena a travessia?
Valeu pois.

Pela vaga de fundo se sumiu o futuro histórico da minha classe, no fundo deste mar, encontrareis tesouros recuperados, de mim que estou a chegar do lado de lá para ir convosco. Tesouros infindáveis que vos trago de longe e que são vossos, o meu canto e a palavra, o meu sonho é a luz que vem do fim do mundo, dos vossos antepassados que ainda não nasceram.
A minha arte é estar aqui convosco e ser-vos alimento e companhia na viagem para estar aqui de vez.
Sou português, pequeno burguês de origem, filho de professores primários, artista de variedades, compositor popular, aprendiz de feiticeiro, faltam-me 1 dente. Sou o Zé Mário Branco, 37 anos, do Porto, muito mais vivo que morto, contai com isto de mim para cantar e para o resto.


Ser solidário assim, par'além da vida...

José Mário Branco - FMI


Nota:
FMI foi editado originalmente em 1982 no maxi Som 5051106, e reeditado em 1996 em 'Ser Solidário' ( EMI-Valentim de Carvalho). Aconselha-se vivamente a sua audição.




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